domingo, junho 10, 2007

Realizador da Semana: David Cronenberg

David Cronenberg é um caso raro na história do cinema. Os seus filmes têm o condão de suscitar o interesse dos públicos mais diversos, desde as multidões dos centros comerciais aos cinéfilos do Festival de Cannes, passando pelos punks berlinenses do Tacheles. Mais interessante ainda é a vitalidade inesgotável da sua filmografia, que não mostra quaisquer sinais de cansaço e continua a conquistar admiradores junto das novas gerações de espectadores.

Isto não significa que o David Cronenberg seja um cineasta popular. Ele sempre desprezou os realizadores mais comerciais, como o Steven Spielberg, que procuram agradar a toda a gente e não ferir as susceptibilidades de ninguém. O inverso também é verdadeiro, porque os filmes do Cronenberg não têm nada de gratuito. O senhor detesta as provocações grosseiras e a controvérsia fácil: «The Geraldos and the Jerry Springers and the TV shows and the shows about sex and vaginal reconstruction and God knows what you can see on television, those exposures of sexuality are not real somehow.»

Este carácter irreal, artificioso é o que distingue as reportagens escandalosas dos filmes mais controversos de David Cronenberg. Ele é um cineasta profundamente verdadeiro. É verdadeiro, mesmo quando mostra televisores que matam pessoas ou homens que se transformam em moscas, porque a verdade de que se está a falar não é necessariamente a do mundo empírico, mas uma verdade cinematográfica, poética. O mundo do cinema rege-se por normas próprias e será tanto mais autêntico quanto mais os espectadores aderirem a elas.

Resta saber como é que isso se consegue, ser verdadeiro. A verdade é uma preocupação permanente de todos os criadores artísticos, mas só alguns deles é que conseguem ser verdadeiros. Uma condição importante é a riqueza de pormenores. Os detalhes devem ser suficientemente minuciosos e fascinantes para serem convincentes. Veja-se o caso de Scanners. O filme descreve a telepatia como «a conexão directa de dois sistemas nervosos separados pelo espaço» e «uma perturbação das sinapses», acrescentando que é uma experiência acompanhada de «hemorragias nasais, dores de ouvidos, cólicas e náuseas». Estes pormenores são fundamentais para a compreensão da história: sempre que eles surjam, o espectador sabe que está em curso uma análise. Os pormenores não devem apenas ser abundantes, mas também necessários. Tudo o que seja supérfluo não é, neste sentido, verdadeiro.

® Flávio Sousa

4 Comments:

At 10:33 da tarde, Blogger _Loot_ said...

Um dos meus realizadores favoritos

 
At 10:03 da manhã, Blogger Flávio said...

E um dos meus preferidos também e merecia um texto muito melhor que este. Cheguei à conclusão que este meu post está uma grande merda.

 
At 1:23 da tarde, Blogger Flávio said...

Que porcaria de texto, estou tão envergonhado.

 
At 1:08 da tarde, Blogger cine7 said...

Caro Flávio, tem calma contigo. Se o teu texto estivesse uma m****, como dizes, eu nem sequer o teria publicado. Tem confiança em ti. Não há um padrão único e insubstituível que dite regras sobre o que é escrever bem ou mal, cada um escreve como quer.

Cumprimentos,
Isabel Fernandes

 

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