domingo, junho 03, 2007

Inland Empire

Título Original:
"Inland Empire" (2006)

Realização:
David Lynch

Argumento:
David Lynch

Actores:
Laura Dern – Nikki Grace/Susan Blue
Jeremy Irons – Kingsley Stewart
Justin Theroux – Devon Berk/Billy Side
Harry Dean Stanton – Freddie Howard


David Lynch habita num universo pessoal, uma escura toca ao jeito da do coelho da Alice, mas onde os monstros saem do papel de parede para assustar a cada badalada. Uma vez por outra, Lynch sai da toca e granjeia-nos com esboços do seu pesadelo mais recente. Pode acontecer o pesadelo fazer sentido, pode não fazer, ou pode encerrar tantos sentidos que só por sorte chegamos ao verdadeiro.

Alucinogénico e surreal, David Lynch levou dois anos e meio a filmar este projecto sem guião, que ia avançando conforme as ideias do realizador se desenvolviam. As imagens são peculiares e dispersas e o tecido do espaço e do tempo é distorcido para servir esquemas cosidos ao acaso, com frases enigmáticas espalhadas, a forçarem uma ligação não evidente entre cenas e personagens.

A ausência de conjunto é demasiado flagrante, os artifícios visuais e narrativos rodam no vazio, sem freio ou direcção. Infelizmente, desta vez é penoso assistir a semelhante aridez de ideias, aos diálogos mentecaptos, à péssima qualidade da imagem (vídeo de baixa definição), ao cabotinismo de Laura Dern e de Justin Theroux (alguém deu por ele no filme “Miami Vice”?).

Com quase três horas de duração, “Inland Empire” estica uma cadeia de quadros, sem preocupar-se com lógica interna, «um sonho do qual o próprio sonhador faz parte» (máxima de Lynch), baralhando e tornando a baralhar o que nem à partida foi um todo coerente. Ao contrário de um cofre com mil e uma combinações, este tem a porta aberta e nada lá dentro.

Sem cérebro nem coração, “Inland Empire” é um teste à paciência mas não ao raciocínio. Funciona como uma vídeo-instalação, uma exposição experimentalista, uma polpa feita do aglomerado de cenas soltas, misturadora, electricidade, o que for será. Servido por textos estéreis e sem a menor riqueza, ritmo narrativo inane, película de fraca resolução e actores à nora, sobra um filme dentro de um filme, uma amálgama simplória entre guião e realidade, e prostituição vinda da Europa de Leste (nomeadamente Roménia, língua em que é debitada parte do diálogo) a encaixar-se de forma aleatória.

Para quem considere que nenhum cineasta está acima de suspeita e seja adverso à ideia de que deve atribuir-se brilhantismo àquilo que não se compreende, é perfeitamente defensável que o pastiche de “Inland Empire” seja considerado uma inútil perda de tempo.

® Ricardo Lopes Moura

3 Comments:

At 12:15 da tarde, Blogger halloween 77 said...

Salientando que ainda não vi o filme, gostaria de te perguntar se gostaste dos outros filmes do David Lynch?

 
At 8:58 da tarde, Blogger Ricardo Lopes Moura said...

salientas tu muito bem :)

sim, sou fã incondicional dos seguintes filmes do lynch: blue velvet (menos da celulite da isabella rossellini), homem elefante, estrada perdida, twin peaks (filme e série) e mulholand drive.

mas, antes que perguntes, achei o straight story uma seca e o wild at heart uma fantochada (no geral, pq se aproveitam algumas cenas).

o eraserhead só o vi uma vez (numa retrospectiva do cinema fantástico, no King, há década e meia, e não fiquei com uma opinião formada, mas para filme experimental era fantástico qb, ainda que tenha ficado a apanhar bonés parte do tempo, como não poderia deixar de ser num filme do lynch).

inland empire é mesmo mau, não é uma questão de eu gostar ou não do lynch, porque gosto :S

 
At 6:17 da manhã, Blogger Pulmão said...

Fico impressionado como uma pessoa que se diz entendida de cinema pode demonstrar tamanha falta de sensibilidade e poder de compreensão em relaçaõ à obra citada.
Talvez se tivesse alguma (sensibilidade) poderia tentar perceber que o "teste de racicionio" que voce tanto procura esta justamente na construção do medo no espectador, atravez dos signos inconscientes desse sentimento.
Dessa forma, o filme se desenrola como uma especie de transe entre realidade/ficção, consciencia/inconsciente, deixando, ao meu ver, a pergunta de se o filme é realmente ficcional se o medo é real.
Além de ter, sim, um roteiro realemnte dificil para entender.
Enfim, assista a seção da tarde que provavelmente será um programa mais divertido para você.

 

Enviar um comentário

<< Home