domingo, julho 01, 2007

Citizen Kane - O Mundo a seus Pés

Título Original:
"Citizen Kane" (1941)

Realização:
Orson Welles

Argumento:
Herman J. Mankiewicz & Orson Welles

Actores:
Orson Welles – Charles Foster Kane
Joseph Cotton – Jedediah Leland
Doroty Comingore – Susan Alexander Kane
Agnes Moorehead – Mary Kane
Ruth Warrick – Emily Monroe Norton Kane


Realizado e protagonizado por Orson Welles, este é, sem dúvida, um dos filmes mais influentes e interessantes da história do cinema que, há 66 anos atrás, retratou um tema que continua sempre actual: a relação entre a política, a economia e o jornalismo. Um filme direccionado a todos os estudantes de comunicação e interessados na área.

Citizen Kane foi a primeira longa-metragem de Orson Welles que marcou a sua estreia na sétima arte poucos anos depois do episódio de A Guerra dos Mundos. Esta polémica emissão radiofónica do então jovem Welles, inspirada no livro homónimo de H. G. Wells, causou ondas de pânico a milhares de norte-americanos convencidos de que o seu país estava a ser invadido por extraterrestres.

O filme centra-se na história da vida de Charles Foster Kane. De origem humilde, até ao dia em que a mãe herdou uma mina de ouro, Kane rapidamente edifica o seu império. Estabelece um controlo dos meios de comunicação social a graças à influência do seu jornal e da estação de rádio. Ingressa na vida política e candidata-se a governador, mas acaba por não satisfazer as suas ambições políticas.

De feitio instável, torna-se violento com as mulheres que passam pela sua vida e acaba por morrer sozinho no seu enorme casarão. Os jornalistas que noticiam a sua morte dão início a uma meticulosa investigação com o intuito de descobrirem o significado de “Rosebud”, a última e enigmática palavra dita por Kane antes de morrer. Entrevistam toda a gente que o conheceu, expondo pormenores dos seus setenta anos de vida. Com isto podemos ver que afinal o sensacionalismo jornalístico não é prática recente.

Segundo consta o protagonista de Citizen Kane terá sido inspirado na figura do magnata da imprensa norte-americana William Randolph Hearst, no entanto se estivermos atentos acabamos por nos aperceber de que Orson Welles também introduziu no filme aspectos da sua vida pessoal. Os sucessivos flashbacks e flashforwards da narrativa não-linear são uma inovação para a época em que foi filmado, no entanto baralham um pouco o público deixando-o por vezes perdido na pormenorizada história do filme. Há que destacar as técnicas de imagem futuristas: jogos de luz e escuridão, exploração de campo e contra-campo, entre outras.

Welles escreveu o argumento do filme com Herman J. Mankiewicz, tendo recebido um Óscar de Melhor Argumento na cerimónia de 1941. Apesar disso a obra cinematográfica de Welles só seria valorizada muitos anos depois. Recentemente, tal como aconteceu em 1998, o American Film Institute colocou Citizen Kane no primeiro lugar da lista dos "Cem melhores filmes de sempre".

® Isabel Fernandes

2 Comments:

At 8:21 da tarde, Anonymous Roberto Queiroz said...

Para mim, esse filme é dez estrelas. Um dos maiores marcos da história do cinema mundial. O próprio Orson Welles não conseguiu em toda a sua carreira fazer algo tão genial de novo. Essa semana também tive o prazer de assistir uma obra-prima cinematográfica: Crepúsculo dos Deuses, do Elia Kazan (fala sério que eu ia perder o meu tempo vendo o Brasil sofrer na Copa América para ganhar de 3x0 do Chile!).

(http://claque-te.blogspot.com): Magnólia, de Paul Thomas Anderson.

 
At 12:13 da manhã, Blogger José Varregoso said...

Bom comentário! "Citizen Kane" é o filme único de um cineasta invulgar. Costumo afirmar que é o «retrato cinematográfico da vida de um homem». Quero dizer com isso que constitui uma narrativa acerca do percurso de um homem. Mas não é uma narrativa comum em que os factos são contados cronologicamente ou segundo uma estrutura familiar. Orson Welles conta a vida inteira de um ser humano com tudo o que ela tem de normal e de anormal. Com imagens, sons, encenações e malabarismos técnicos. Através de um argumento habilidoso.
A vida de Charles Kane é-nos apresentada como o resultado da soma das peças de um «puzzle».
A sequência inicial mostra-nos a morte do homem, filmada com brilhantismo. A última palavra proferida por Kane no momento final da sua existência é "Rosebud".
É conduzido um processo de investigação meticuloso em que as pessoas mais próximas de Kane são ouvidas.
Na realidade, a personalidade de Kane não é transparente mas complexa e algo ambígua. No termo do filme, descobrimos (pelos olhos da câmara) que Rosebud não é a palavra que explica a vida de Kane. Mas antes uma peça desse «puzzle» que foi a sua vida.
Kane, o homem da Imprensa que quer vender o maior número possível de jornais. Kane, o homem que é um manipulador das realidades jornalísticas. Diz ele: «Os títulos grandes fazem grandes notícias.»
Kane, o homem da imagem pública maior do que ele mesmo. Kane, o homem que quer ser amado mas que não sabe amar - que se inclina a manipular os outros consoante os seus ideais.
Kane, a lenda viva e Kane, o homem frágil e desamparado. Kane é tudo isso e mais do que o espectador vem a saber.
Concordo contigo, Isabel, que os avanços e recuos no tempo podem dificultar uma apreensão acessível de todas as dimensões da história. Talvez, às vezes, se torne confuso situar uma dada cena no percurso da vida de Kane. Mas também acredito que "Citizen Kane" é um filme que se vai compreendendo melhor à medida que se revê e se constata a forma lógica como as peças encaixam. É um filme para ver várias vezes. Pelo seu valor técnico e pela amplitude das reflexões que dele podemos extrair.
Na minha opinião, "Citizen Kane" não é recordado como "Casablanca" de 1943 ou "E Tudo o Vento Levou" de 1939 porque há uma certa frieza no esboço dos personagens. Frieza propositadamente procurada ou não evitada. Há personagens que falam de Kane e não tanto delas mesmas. Não há muitos sentimentos transparentes e o público gosta de sentir amor ou ódio pelos personagens. Quando o público reage emocionalmente a um filme, mais facilmente o recordará.
"Citizen Kane" é uma pérola cinematográfica em termos técnicos e intelectuais mas não é um filme vibrante. Nem é protagonizado por pares mediáticos como Ingrid Bergman e Humphrey Bogart (de "Casablanca") ou Vivien Leigh e Clark Gable (de "E Tudo o Vento Levou").
"Citizen Kane" foi um filme bem recebido no seu tempo. Mas tem sido idolatrado, ao longo dos tempos, por uma élite de intelectuais. E menosprezado pelo grande público. A causa desta realidade pode residir no facto do filme não produzir um impacto emocional muito directo no espectador. Isso parece-me relativamente óbvio.
Um abraço!

 

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