domingo, abril 08, 2007

A Vida dos Outros

Título Original:
"Das Leben der Anderen" (2006)

Realização:
Florian Henckel von Donnersmarck

Argumento:
Florian Henckel von Donnersmarck

Actores:
Martina Gedeck – Christa-Maria Sieland
Ulrich Mühe – Hauptmann Gerd Wiesler
Sebastian Koch – Georg Dreyman
Thomas Thieme – Ministro Bruno Hempf


Vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, este filme alemão debruça-se sobre a falta de privacidade patente na antiga RDA, numa altura em que ninguém estava acima de suspeita e os interesses do Estado se sobrepunham aos do cidadão, sempre visado como um subversivo em potência.

Situando-se em 1984, cinco anos antes da queda do muro de Berlim, na parte oriental da cidade o socialismo continua a ser preservado através de uma força invisível, a Stasi (policia secreta), cujos métodos são escutas nas residências dos suspeitos e posteriores interrogatórios ininterruptos. Um desses interrogadores, professor universitário e inspector da polícia secreta, pessoa desconfiada por natureza, tem a missão de supervisionar a vigilância a um dramaturgo aparentemente fiel ao Partido. Sabendo que os motivos que geraram a missão são de natureza pessoal (um Ministro corrupto e prevaricador pretende afastar o dramaturgo por ciúmes, já que cobiça a namorada deste; e o chefe da Stasi quer ficar nas boas graças do Ministro), o inspector deixa-se influenciar pelas escutas sobre liberdade e direitos humanos. E também pela história de amor entre o dramaturgo e a namorada, uma actriz de renome que tem de humilhar-se às mãos infectas do Ministro, para poder continuar a representar.

Assiste-se a graduais mudanças de atitude tanto da parte do agente da Stasi como do dramaturgo, fiel ao regime, que vai ficando mais crítico e menos dócil à medida que o drama o oprime. O suicídio de um amigo encenador, banido dos palcos há anos e que se via obrigado a mendigar aos amigos, despoleta a sua raiva. O agente da Stasi, homem recto que não pode denunciar nem corrigir as acções dos seus superiores, inicia um jogo do qual dificilmente sairá ileso.

A Vida dos Outros balança perigosamente entre o melodrama e a denúncia, tentando ainda estabelecer-se como thriller político. Consegue nota positiva em todos os campos, mas a mudança de perspectiva operada no agente da Stasi é a parte que mais dificilmente se engole, pois a sua mentalidade no início do filme via apenas preto e branco (ou se é pró-regime ou criminoso - ele fala em «inimigos do Socialismo», e nesse chavão cabem tanto ministros corruptos como dramaturgos inconformistas) e o seu quase completo mutismo não ajuda. Os olhos e a postura do actor Ulrich Muehe são cruciais, mas há coisas que ficam por dizer. E teriam ajudado.

O filme interessa-se mais pelos aspectos sentimentais e sociais do que propriamente pela questão política, que fica apenas subentendida. Não assistimos a interrogatórios acompanhados de violência física (algo que, por exemplo, O Bom Pastor não se coibiu de fazer, dando um rosto negro aos seus próprios serviços secretos, a CIA), nem a actos públicos de repressão policial. A frieza do ambiente é aquecida pelas características das personagens, com as quais rapidamente privamos.

No todo, não é um filme inflamatório, apenas uma história de amor em tempo de guerra fria, num Estado decadente e corrupto, que obriga os seus cidadãos a atitudes de sobrevivência que questionam a moralidade, mas a que nenhum país, mais ou menos abertamente, é imune.

® Ricardo Lopes Moura

3 Comments:

At 12:09 da tarde, Blogger Flávio said...

Vi em Berlim A Vida dos Outros. O filme teve uma reacção muito curiosa nesta terra, porque veio pacificar ou sossegar a opinião pública alemã. Muita gente andava incomodada com a visão simpática da ditadura da antiga RDA em filmes como Adeus Lenine ou Sonnenallee.

 
At 5:40 da tarde, Anonymous Julia said...

Não concordo com tua crítica. O que é fascinante é justamente a conquista do espião pela sensibilidade e, principalmente a arte que o dramaturgo transpira. Ele é mais do que um thriller político. é um filme sobre a alma humana e o embrutecimento, pelo qual passamos.

 
At 11:39 da tarde, Anonymous Holly said...

Rafael meu garoto, o que é isso????

Sua análise é fria e superficial. O filme vai muito além das linhas escritas acima. Trata das nuances das relações humanas como poucos, e da fidelidade do protagonista aos seus ideais, e não apenas ao partido e seu chefe que vai fazê-lo se dar bem pegando a mulher de um inimigo.

Na minha opinião, fecha - ao lado de 'A Queda' e 'Adeus, Lenin' a trinca de filmes alemães obrigatórios.

Beijinho,

Holly

 

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