sábado, dezembro 03, 2005

O Acossado

Título Original:
"À Bout de Souffle" (1959)

Realização:
Jean-Luc Godard

Argumento:
Jean-Luc Godard & François Truffaut

Actores:
Jean-Paul Belmondo - Michel Poiccard alias Laszlo Kovacs
Jean Seberg - Patricia Franchini


Aqui está um dos primeiros dvd’s que comprei. E quando acabei de vê-lo, bem sabia que valia bem mais que o, felizmente, baratíssimo preço que custou. Dar menos de oito euros por uma obra assim, adquirida já há um valente tempo, é das melhores definições de “ouro sobre azul”.

À Bout de Souffle, no seu título original, é o filme que vem à cabeça de todos quando é evocada a Nouvelle Vague. Este “tido em conta” como o filme mais importante e influente do já referido movimento cinematográfico francês é perfeitamente compreensível ou não estivessem por detrás da obra Jean-Luc Godard, François Truffaut e Claude Chabrol, alguma da mais fina flor do dito movimento cujos reis são os dois primeiros, sendo o primeiro, o Deus.

A premissa é vulgar: um jovem e desenrascado ladrão de automóveis torna-se logo “Wanted” pela polícia ao ter assassinado um agente desta mesma. O homem, Michel Poiccard, não demora muito, dada a situação, a tentar induzir a sua namorada norte-americana a uma fuga para Roma.

A ousadia de Godard, visto por imensos especialistas como um dos maiores revolucionários do século XX na arte, e que lhe valeu um urso de prata como melhor realizador no Festival de Berlim, é logo notada na montagem algo frenética, espelhando bem a tenacidade ambígua que nos acompanha no filme. Ambígua porque os diálogos, apesar da sua enorme falta de eloquência, estão-nos constantemente a transmitir mensagens escondidas. Pondo assim, as falas estão ao alcance de todos, o que está por detrás delas, está reservado a quem não se limita a ver ou olhar, mas propõe-se a reparar.

Há um aspecto deveras curioso nesta obra de Godard. Os tiros disparados no filme não são encontrados pela câmara no momento do contacto e o atropelamento de um homem é mostrado já bem no fim da sua queda, isto é, a falta de espectacularidade visual no Acossado pode ser entendida como uma crítica de Godard ao mediatismo exagerado no cinema porque o que este nos parece fazer crer com este assunto é que este seu filme é puramente intimista, mesmo havendo grande mérito técnico nos planos e enquadramentos da câmara, o que só acaba por provar que é um filme de grande estilo, um filme que é uma clara fonte de inspiração formal. Um filme cheio de substância... de um verdadeiro intelectual.

® Artur Almeida

5 Comments:

At 12:38 da manhã, Blogger Daniel Pereira said...

Bom, o que a Nouvelle Vague fez foi desconstruir os géneros do cinema clássico americano. Neste caso específico, era o "noir" alvo de desconstrução. Não me parece que o "noir" clássico americano sofresse de qualquer mediatismo exagerado. Volto a sublinhar, a NV foi um movimento de enorme cinefilía e foi nesse sentido que revolucionou o cinema, virando do avesso o que existia até aí. Claro que aspectos técnicos como a montagem são chocantes, mas o movimento vai muito para além disso.

 
At 2:51 da manhã, Blogger cine-asia said...

Confesso que não conheço muito da nouvelle vagye. Tenho o Alphaville para ver e espero visionar este "O Acossado" para enriquecer mais a minha cultura cinematográfica.

Cumprimentos

 
At 9:22 da manhã, Blogger Sunday Morning said...

"Um dos filmes que inaugura oficialmente a Nouvelle Vague e o cinema moderno, um marco na história do cinema pelas mudanças que trouxe. Mudanças no modo de filmar, na narrativa fragmentada e "desconexa", nas referências directas ao cinema e à colagem de citações, que caracterizará o cinema de Godard e de todos os cineastas que dele descendem."

uma das citações qe gosto mais neste filme é
Michel Poiccard: Reminds me of the one about the condemned man. Climbing the scaffold stairs, he trips, and says, "In the future... "

 
At 8:05 da tarde, Anonymous Artur Almeida said...

Daniel Pereira: Por "mediatismo exagerado", leia-se, no contexto, "uma certa noção do espectáculo da violência" e Godard nunca foi grande adepto disso(há não muito tempo pronunciou-se sobre a violência do cinema de Tarantino num tom não muito elogioso). Ora, na década de 50, o cinema americano tinha 1 certa fama de violência. "os românticos anos 30/40, os violentos anos 50, os conturbados anos 70, etc" E eu com essa observação, lida bem, não me refiro unicamente ao noir e até está escrita em tom de especulação e não de afirmação e até pode ser entendida como um desejo de Godard para o futuro do cinema: "calma com a violência"(chegou a passar-me pela cabeça isto, vagamente. Idiossincracia natural, nada mais).

"There is no point in having sharp images when you've fuzzy ideas" - Godard

Cumprimentos

Sérgio Lopes: Fazes bem em querer vê-lo, acredita, é imperdível, e obrigatório, claro.

Cumprimentos

Sunday Morning: Ainda ficou-me mais na cabeça aquela citação da Patricia Franchini: "It's sad to fall asleep. It separates people. Even when you're sleeping together, you're all alone."

Cumprimentos

 
At 12:42 da manhã, Blogger drika.web said...

Excepcional o vosso blog... Vou passar por cá mais vezes. Já agora, onde consigo comentários ou críticas sobre produção e pós-produção de filmes? É q sou estudante (universit) tenho esta disciplina.
Obrigada,

Drika

 

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