quarta-feira, janeiro 24, 2007

Transe

Título Original:
"Transe" (2006)

Realização:
Teresa Villaverde

Argumento:
Teresa Villaverde

Actores:
Sónia - Ana Moreira


Autora de um dos mais interessantes filmes portugueses da década passada, Os Mutantes, e de outros títulos menos consensuais como Três Irmãos ou Água e Sal, Teresa Villaverde apresenta em Transe mais uma película que contribui para a consolidação de uma obra singular e desafiante, para o melhor e para o pior.

Ancorado no percurso de Sonia, uma jovem russa que emigra na esperança de encontrar oportunidades para uma vida de maior prosperidade, o filme começa por seguir a protagonista até à Alemanha, onde esta encontra trabalho numa oficina, mas cuja rotina é subitamente interrompida quando o seu destino se cruza com uma rede de tráfico de mulheres para prostituição.
Assim, Sonia inicia uma dolorosa espiral descendente que passa pelo rapto, encarceramento e violação, tanto física como psicológica, durante uma interminável viagem pela Europa (da Alemanha levam-na para Itália e, depois, para Portugal), aqui palco de um Inferno na Terra.

Revestido de maiores camadas de crueza e crueldade do que as que já assombravam Os Mutantes, Transe é um olhar muito pouco condescendente sobre a faceta mais obscura da humanidade, onde Sonia surge como o cordeiro sacrificial que não tem alternativa senão sujeitar-se ao rumo determinado por terceiros. Daí o título do filme, que não poderia ser mais apropriado para caracterizar o estado de anestesia, alienação e apatia em que a protagonista é forçada a recolher-se.

A actriz principal, Ana Moreira, é determinante para que esse efeito tenha impacto, e se outras películas atestavam já a sua entrega e expressividade em Transe o seu desempenho vai ainda mais além, evidenciando na perfeição o concentrado de dor e humilhação de que a sua personagem é alvo, confirmamndo-a como uma das mais brilhantes actrizes da sua geração.

Se a interpretação de Ana Moreira é magnífica, Transe não é, contudo, tão bem-sucedido noutros aspectos, sendo prejudicado por alguma pretensão no trabalho de realização de Villaverde, que não resiste a sequências dominadas por planos longos e redundantes, desnecessárias num filme capaz de gerar, noutros momentos, uma intensa e cortante carga realista.
A presença ocasional da voz off tem também um interesse discutível, tornando-se por vezes quase embaraçosa, e o desenlace revela-se pouco satisfatório ao apostar num simbolismo tão forçado como hermético. Transe peca ainda por mergulhar num acérrimo pessimismo e miserabilismo, demasiado frequente em algum cinema português, o que se por um lado gera um muito eficaz e desarmante efeito claustrofóbico não deixa de ser excessivo.

Em todo o caso, Villaverde proporciona aqui um meritório, ainda que desigual, retrato de uma experiência in extremis, resultando num filme de difícil digestão mas suficientemente relevante para justificar o seu visionamento.


® Gonçalo Sá

3 Comments:

At 12:42 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Continuo a considerar OS MUTANTES como o melhor filme português dos anos 90. Embora a análise profunda dos males da sociedade portuguesa seja um "lugar comum" no nosso panorama cinematográfico, ninguém demonstrou, antes ou depois de OS MUTANTES, a "miséria lusitana" com um misto de realismo e surrealismo de forma tão cabal.

E, por este caminho, o nome de Ana Moreira será, em breve, sinónimo da jovem mulher sofredora...

Cumps cinéfilos.

 
At 3:30 da manhã, Blogger gonn1000 said...

Também acho que "Os Mutantes" é bem capaz de ser o melhor do que se fez por cá nessa década, pena que "Transe" esteja um pouco abaixo.
E sim, a Ana Moreira é excelente nesse registo mas gostaria e a ver noutros.
Bons filmes.

 
At 2:42 da manhã, Blogger wasted blues said...

Admito que não sou grande espectadora de filmes portugueses. Mas junto-me aos que admiram 'Os Mutantes'.

Aliás... quando é que a Atalanta se lembra de o editar em DVD?

 

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