quinta-feira, julho 05, 2007

A Cidade dos Malditos

Título Original:
"Village of the Damned" (1995)

Realização:
John Carpenter

Argumento:
Stirling Silliphant (argumento de 1960) com base no romance de John Wyndham

Actores:
Christopher Reeve – Dr. Allan Chaffee
Kirstie Alley – Dr. Susan Verner
Linda Kozlowski – Jill McGowan
Michael Paré – Frank McGowan


Numa pequena comunidade isolada, um perigo terrível vem do exterior e instala-se de forma destrutiva. Os contornos deste cenário podem remeter-nos para o clássico de Hitchcock, Os Pássaros; para uma brilhante mini-série de 1999 – A Tempestade do Século – com argumento de Stephen King; ou para O Nevoeiro de John Carpenter.

Carpenter é um autor com um estilo muito pessoal, que desenvolve temas do universo do Terror e do Sobrenatural com uma elevada dose de tensão emocional e de suspense. Os dias mais brilhantes da sua carreira (com mais de 30 anos) parecem já ter passado, a julgar pelas suas obras mais recentes. Depois dos brilhantes Assalto à 13ª Esquadra e Halloween, vieram filmes menos sólidos mas marcadamente interessantes: Veio do Outro Mundo (remake de um filme dos anos 50), O Príncipe das Trevas ou O Nevoeiro. Jack Burton nas garras do Mandarim revela contornos mais satíricos. Vampiros é pontualmente grotesco e caricato. Eles Vivem e Fantasmas de Marte são filmes que não desenvolvem inspiradamente ideias interessantes.

A Cidade dos Malditos é uma obra sóbria de Carpenter. Desvalorizada e esquecida. Com personagens credíveis e situações chocantes mas não incrivelmente aparatosas. Carpenter teve o bom-senso de não recorrer aqui a uma sobredosagem de efeitos especiais.

Nesta história, o perigo reside em 9 crianças de aspecto angélico mas frio. Não vem de monstros horripilantes. O poder das crianças é cinematograficamente expresso através da coloração acentuada da íris dos seus olhos. Olhos que brilham incandescentemente, que provêm de mentes que conseguem ler o pensamento dos outros e induzir-lhes vontades auto-destrutivas.

Uma das crianças profere a certo momento: «Os olhos são o espelho da alma». Nada me parece mais simbolicamente eficaz do que identificar o espírito alienígena daquelas crianças através da anormal coloração dos seus olhos. De resto, eles têm posturas rigidamente ordenadas; e um insólito cabelo que não é verdadeiramente loiro nem branco. Movimentam-se em sintonia. E não se integram na comunidade.

Poder-se-iam atribuir muitos créditos a Carpenter por aquilo que ele conseguiu em A Cidade dos Malditos. Mas a verdade é que esta obra é uma remake de um filme de 1960, não menos interessante e enigmático. O argumento do filme de Carpenter baseia-se num livro de John Wyndham e na história da película de 1960 que foi realizada por Wolf Rilla e protagonizada por George Sanders.

O que me parece pertinente salientar é que, podendo usar recursos tecnológicos que elevariam a espectacularidade visual do filme, Carpenter se deteve a desenvolver o conteúdo mais humano da história. Refez o trabalho de Wolf Rilla com apuro, competência e sobriedade (contrariamente, por exemplo, a Gus Van Sant no sua remake do Psico de Hitchcock).

Os actores foram bem dirigidos, o suspense bem cimentado desde o primeiro minuto do filme em que tudo parece estranho e inconcebível. Carpenter constrói um sólido cenário de terror e de inquietação.

Esta história tem um enorme interesse filosófico subjacente. Aquelas crianças, provenientes de uma civilização superior, não têm emoções. É a total insensibilidade delas que a distingue dos humanos. Podemos perguntar-nos então: não serão as emoções e a capacidade de distinguir o Bem do Mal que identificam a natureza humana? O Homem não tem capacidades telepáticas e os níveis da sua inteligência têm limites estabelecidos. O Homem não compreende muitos fenómenos e constrói a sua identidade misturando o poder do raciocínio com a riqueza das emoções. Sem essas emoções, existirá humanidade?

O professor da escola local (interpretado por Christopher Reeve no seu último papel antes do trágico acidente que o vitimou) pergunta numa certa cena: «Que posso eu ensinar a estas crianças se elas são tão geniais e inteligentes?» E logo alguém lhe responde: «Podes ensinar-lhes Humanidade.”

Aquelas crianças, todas nascidas no mesmo dia num fenómeno inexplicável, parecem obedecer a princípios comuns. A sua enorme capacidade de raciocínio não as consegue, no entanto, levar a compreender o que é uma emoção. Uma delas declara com preponderância: «Obedecemos a compromissos biológicos.» E tudo farão para os respeitar e pôr em prática.

Geradas no ventre de mulheres humanas (e portanto emocionais), aquelas crianças são fisicamente perfeitas. Mas não desenvolvem emoções, não as compreendem e não entendem a sua razão de ser. O percurso de David, um rapaz dos nove, é divergente. A menina que estava biologicamente determinada para ser sua companheira morreu durante o parto. Logo ele vive, como nenhum dos outros, a sensação de perda e de saudade.

Ter emoções e tomar consciência delas é profundamente humano. Mas nem todas as emoções são moralmente correctas. Da sensação de perda e de angústia, podem nascer sentimentos de ira e de revolta. Aquele menino especial, diferente dos restantes oito, será mais humano mas isso fará dele uma criatura melhor?

O elenco (bem conduzido) inclui Kirstie Alley, Mark Hammil (da Guerra das Estrelas) e a belíssima Linda Kozlowski. De resto, Carpenter constrói um estado de tensão crescente com ingredientes típicos do seu estilo – Como a Música (que nos seus filmes é uma marca identificativa) e que num registo minimalista e insistente, adensa a sensação de perigo e de inquietação.

Pontualmente, a banda sonora ecoa uma melodia que parece vinda de uma canção de embalar. De resto, o carácter insólito desta história reside no facto de nove crianças perfeitas ameaçarem toda a harmonia e felicidade. Quando estamos acostumados a ouvir que «as crianças são o melhor do mundo».

O conceito de sobrevivência implica sempre a vitória sobre as adversidades. Mas como o Professor advoga, sobreviver deverá ser, acima de tudo, sinónimo de adaptação e de coexistência com o meio-ambiente; e não uma dominação sobre esse meio-ambiente. Isso implica processos de cooperação e de simbiose. E implica compaixão. Mas compreendem aquelas crianças ideais tão distintamente humanos?

® José Varregoso

2 Comments:

At 4:52 da tarde, Anonymous Major said...

amei o filme desde pequena acho que foi realizado bem que foi um guionista fixe e bons actores...

 
At 4:52 da tarde, Blogger Major said...

bom quase ja nao me lembrava de todas as letras do titulo do filme mas vfou te contar tenho sempre em minha cabeça algumas cenas deste filme.bom realizador , bom guionista e bons meninos actores vamos la eu ja assiste a miuto tempo e nao me esqueço...

 

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