sexta-feira, agosto 04, 2006

Grandes Esperanças

Título Original:
"Great Expectations" (1998)

Realização:
Alfonso Cuarón

Argumento:
Charles Dickens & Mitch Glazer

Actores:
Ethan Hawke - Finnegan 'Finn' Bell
Gwyneth Paltrow - Estella
Hank Azaria - Walter Plane
Robert De Niro - Arthur Lustig


Realizado por Alfonso Cuáron, Grandes Esperanças é uma jóia de sensibilidade a resgatar do cinema dos anos 90. Ethan Hawke, brilhantemente frágil como sempre, e Gwyneth Paltrow, perigosamente sedutora, pintam este quadro marcante, onde até a música parece esculpida à imagem da história.

Há anos que queria ver este filme, confesso. Mas, justamente quando me lembro de o requisitar no clube de vídeo, eis que ele desaparece - 1998, já muitos filmes se fizeram entretanto e é preciso arranjar lugar nas prateleiras.
Subitamente, a minha vontade encontra eco numa das promoções mirabolantes que hoje em dia aparecem em hipermercados e não só: por apenas 12,49 euros trago dois DVD's, entre os quais esse cobiçado objecto artístico que há tanto me fugia - Great Expectations, big reward.

Grandes Esperanças é, de facto, aquilo que ou mais até do que o que esperava, embora os seus traços de fábula possam encantar ao mesmo tempo que distraem o espectador comum, habituado às comuns histórias de amor transportadas para o ecrã em jeito de comédia ou drama de fazer chorar as pedras da calçada.
Alfonso Cuarón, o mexicano responsável por títulos como E a Tua Mãe Também, pegou no romance de Charles Dickens e fez dele um filme com asas para voar, para bem mais longe do que aquilo que a tela alcança: é que o sentimento de Estella (Paltrow) e Finn (Hawke) desbrava todos os terrenos imaginários, irrompe pela fronteira da nossa sensibilidade, quase que derretendo até os "cubos de gelo" mais resistentes, que à partida o podem caracterizar como demasiado melodramático e utópico. Mas a verdade é que este filme nos toca profundamente: talvez pela narração suave do próprio Ethan Hawke, o miúdo inocente e livre que descobre bem cedo a aproximação entre amor e desprezo; talvez pela realização íntima e lírica de Cuarón, cuja câmara nos leva docemente aos lábios dos protagonistas, nomeadamente quando, na fonte, Estella rouba um beijo a Finn; talvez pela interpretação brilhante que dá corpo à história simples de duas pessoas apaixonadas desde a infância, que se aproximam e que a vida afasta. Destino? Talvez, será essa a grande esperança durante todo o tempo em que os dois ora se procuram ora se esquecem...até não conseguirem resistir mais.

Gwyneth Paltrow, na pele da fria Estella, consegue trespassar-nos com a sua provocação quase desesperante: sedutora, ensinada desde pequena pela excêntrica mas frustrada tia Nora (a impressionante Anne Bancroft) a magoar os homens para não ser magoada, ela rejeita e seduz Finn num ritual masoquista e inquebrantável. Finn, sensível e romântico, que vive da arte e da pesca e se recusa a ceder à fealdade do mundo e das barreiras que as pessoas erguem para se defender, inclusive as barreiras que Nora (sua protectora) ergueu e impôs à sobrinha - mesmo acabando o seu coração e o do menino que protegia destroçados...

Pode dizer-se que nem Paltrow nem Hawke surpreendem, já que tanto um como o outro - sobretudo o protagonista de Antes do Amanhecer - já nos habituaram a papéis deste género. No entanto, o que sobressai é a química entre ambos, e além disso as suas qualidades representativas, que mesmo já vistas são potenciadas pelo argumento (a cargo de Mitch Glazer) e pela intensidade da história. Ethan Hawke, em especial, continua aquele monumento de profundidade, transparência e paixão e parece colado ao papel desde sempre, mostrando mais intensidade do que nunca.

Assim, aqui temos uma obra cinematográfica próxima da perfeição: não por ser um espécime absoluto de originalidade nem um trabalho metafísico ou complexo, mas pela forma como consegue tocar o espectador e arrastá-lo na corrente onde também estão Estella e Finn. Sem ser linear nem labiríntico (no meio está a virtude?), Grandes Esperanças premeia-nos ainda com uma bela e ajustadíssima banda sonora, onde nomes como Chris Cornell ou Mono fazem os restantes estragos. Imperdível.

® Andreia Monteiro

3 Comments:

At 1:25 da tarde, Blogger gonn1000 said...

É interessante e feito com algum bom gosto, mas de genial não vejo aqui nada. 5/10

 
At 2:03 da tarde, Blogger serEmot said...

Não sei se será genial... talvez não. Mas que considero um filme brilhante, tocante e raro, isso considero. A história é fenomenal e a está muito bem representada.

 
At 2:26 da tarde, Blogger Rosane said...

Andreia, concordo com tudo o que disse. faltou falar da fotografia, que faz de cada cena uma pintura. maravilhoso!

 

Enviar um comentário

<< Home