terça-feira, fevereiro 05, 2008

2046

Título Original:
"2046" (2004)

Realização:
Wong Kar Wai

Argumento:
Wong Kar Wai

Actores:
Tony Leung Chiu Wai – Chow Mo Wan
Li Gong – Su Li Zhen
Faye Wong – Wang Jing Wen
Ziyi Zhang – Bai Ling


2046 foi um enorme sucesso de público e crítica. Todas as pessoas que apreciam cinema encontram excelentes razões para gostar do filme de Wong Kar Wai: a magnífica direcção de fotografia, a banda sonora de uma beleza assombrosa ou ainda as interpretações inesquecíveis de um elenco perfeito. Todos estes elementos surgem impecavelmente orquestrados pelo realizador mais brilhante e sensível de sempre. Mas há um grupo que terá uma relação particularmente intensa com 2046: os escritores. Essa gente tem razões acrescidas para gostar do filme, não só pela sua linguagem marcadamente literária (as analepses, os fragmentos), mas também pelo tema e protagonista.

O herói de 2046 é um escritor e, como todos os escritores, é uma pessoa complexa. As suas acções parecem estranhas, paradoxais e, por vezes, falhas de carácter. Chow é um sedutor nato que parece querer levar as suas mulheres ao pico da felicidade a dois, apenas para que elas depois possam sofrer uma queda ainda maior. «Talvez eu não seja um tipo assim tão decente», afirma o próprio Chow em jeito de confissão. Isto deixa à vista o carácter autobiográfico do seu texto sobre o misterioso comboio que parte para 2046, onde os homens e mulheres que buscam o amor querem resgatar as suas memórias perdidas; porém, a verdadeira natureza desse lugar permanece desconhecida, porque até à data ninguém regressou de 2046.

A solução para o mistério de 2046 poderá estar numa famosa obra de um outro escritor, Stendhal, intitulada Do Amor. O essencial deste formoso livro sobre o amor-paixão pode ser resumido em três grandes divisas. Primeiro, o amor é fundamentalmente um fenómeno da imaginação. O enamoramento implica uma projecção da perfeição naquilo que amamos e, nessa medida, é uma espécie de auto-ilusão deliberada. Segundo, os melhores momentos do amor são os seus momentos iniciais. Nas incertezas e inquietações da fase de sedução estão as delícias do amor; quando chega o seu desenlace, o melhor já passou e tudo o que nos espera é a comodidade, a rotina e o marasmo. Terceiro, o amor-paixão conduz a um certo ascetismo, porque «paralisa todos os prazeres e torna insípidas todas as restantes ocupações da vida».

Encontramos reminiscências desta concepção austera do amor no final do filme Casablanca. Sabemos que Rick quisera anteriormente viver o seu amor com Ilsa, quando estava com ela em Paris e a pedira em casamento. Depois, em Casablanca, vivem um segundo e inesperado pico da sua paixão amorosa. O que Rick propõe no final (e Ilsa aceita tacitamente) é que ambos evitem a tentação da comodidade na vida amorosa, para que possam preservar como um tesouro a memória dos momentos que partilharam. «We’ll always have Paris.» Esse Paris é tão único e irrepetível como o quarto de hotel de In the Mood for Love e 2046. O protagonista sabe-o bem e é isso que explica o seu comportamento errático. Quando Chow opta por ficar só, não o faz por capricho ou egoísmo mas sim por lucidez.

® Flávio Sousa

3 Comments:

At 6:37 da tarde, Blogger Nuno said...

Flávio,

Vi o filme, há já algum tempo, e já li algumas dezenas de críticas e análises ao "2046". A tua é simplesmente fantástica, porque coincide muito com o que achei do filme e porque nunca tinha lido ninguém expôr o "2046" da forma magnífica como tu o fizeste. Foi também um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. Sou um grande apreciador da obra de Wong Kar Way...e de Tony Leung.

Parabéns
Abraço, Nuno

 
At 8:06 da tarde, Blogger Flávio said...

Viva, Nuno! Obrigado pelo comentário simpático. Já podes vir cá ao escritório e levantar o cheque. ;)

 
At 8:14 da tarde, Blogger Flávio said...

Agora a sério, eu também sou fã do Wong Kar Wai e do Tony Leung. Infelizmente, não vou poder ver a actuação do Tony Leung no último filme do Ang Lee, que não estreou no sítio onde estou a viver :( Quanto ao Wong Kar Wai, uma das coisas que mais gostei no 2046 foi a sua colherada na ficção científica. A princípio, estava um pouco céptico e quando vi o trailer do filme com as imagens digitais 'embonecadas' da cidade do futuro, ainda mais apreensivo fiquei. Porém, acho que o realizador achou a solução perfeita: incluir as imagens do futuro na narrativa do Chow. Dessa forma engenhosa, não prejudicou o nosso interesse e a verosimilhança da história principal.

Um abraço, Nuno!

 

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