quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Belarmino

Título Original:
"Belarmino" (1964)

Realização:
Fernando Lopes

Argumento:
Fernando Lopes

Actores:
Belarmino Fragoso
Jean Pierre Gebler
Teresa N. Bastos
Bernardo Moreira


O começo do filme Belarmino é surpreendente. Ouvimos dizer em off que o protagonista poderia ser um pugilista excepcional, mas que na realidade não o é: «Podia ter sido um grande pugilista, dos melhores da Europa, talvez até campeão dos meios leves e agora é quase um punching ball: Belarmino Fragoso». A locução inicial do Baptista Bastos dá o mote para todo o filme, porque o excelente documentário de Fernando Lopes fala apenas de uma eventualidade: não se descreve um campeão de pugilismo que tenha efectivamente existido, mas apenas aquele que poderia ter existido. Isto é, no mínimo, curioso. Parece estranho que o filme seja anunciado como um documentário e ainda mais insólito que o realizador tenha escolhido um protagonista aparentemente tão desinteressante e até desprezível.

Belarmino tem inúmeros defeitos e o pior deles é a falsidade. O senhor mente com o atrevimento mais descarado e tem o péssimo hábito de alijar responsabilidades: quando é questionado sobre o seu fiasco no ringue do Albert Hall perante um pugilista de segunda, ele desencanta uma história disparatada de corrupção e compadrio. Porém, as mentiras não nos incomodam por aí além. Não só porque o filme do Fernando Lopes deixa claramente à vista o que é ou não patranha, mas também porque a própria inépcia do Belarmino se encarrega de o denunciar, um pouco como a criança que diz ‘não fui eu’ com a boca lambuzada de doces. Aceitamos as mentiras do Belarmino Fragoso e até simpatizamos com elas, pela sua candura e ingenuidade. Mas não só.

O Belarmino seria um indivíduo risível em qualquer outro país do mundo, mas em Portugal é um campeão. Mais do que simples simpatia, existe entre ele e o público português uma verdadeira empatia: uma fusão emocional, uma adesão de sentimentos que se estabelece entre espectador e personagem de tal modo que parece dar-se entre os dois uma espécie de identificação ou projecção. Os portugueses reconhecem-se nas mentiras do Belarmino e na sua esquiva permanente à realidade, porque se há coisa que fazemos bem é não querer ver as coisas como elas são. A este respeito, uma diplomata francesa descreveu o nosso povo como «os chineses do ocidente», porque os chineses nunca vão directamente ao assunto, dão inúmeras voltas antes de lá chegar e sempre em termos pouco claros.

Além do seu carácter esquivo, há outras características do protagonista que são muito nossas: a mediocridade, a ignorância, a gabarolice e a indisciplina. Tudo isto faz do Belarmino um case study, um representante da mentalidade dos portugueses e do seu proverbial «medo de existir», uma figura tão típica e característica como o galo de Barcelos, o Zé Povinho ou o caldo verde. A condição portuguesa é o verdadeiro assunto de Belarmino e não apenas a vida de um pugilista falhado. Daí que filme do Fernando Lopes seja um verdadeiro documentário, porque descreve com verdade e rigor a mentalidade de um povo. Se o realizador encena ou falseia alguns detalhes da vida do protagonista (algumas sequências, como a chegada aos treinos no Sporting ou o engate nos Restauradores, são manifestamente encenadas) é apenas para que se registe com mais fidelidade essa verdade maior.

® Flávio Sousa

13 Comments:

At 6:10 da tarde, Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Confesso que já vi o Belarmino há anos e também o vi como um pobre coitado, mentiroso e que nunca foi ninguém, mas sempre se esquivou às responsabilidades.
Gostei especialmente de ler os teus reparos socio-culturais que nos tornam a todos um pouco Belarminos.
O barrete a quem couber...

 
At 3:09 da tarde, Anonymous Anónimo said...

«um pobre coitado, mentiroso»

Ainda a propósito das 'inverdades' do Belarmino, esqueci-me de referir o momento mais arrepiante do filme, quando ele fala dos tempos em que passou fome: «fome, fome, não era bem fome, não foi fome de três dias, era mais uma fraqueza razoável». :((((((

Um grande abraço, Ricardo!

Flávio

 
At 11:02 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Péssima crítica.
Quem dera a vocês, meus senhores, serem Belarmino. Leiam o poema de Alexandre O'Neill.

 
At 8:43 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Péssima, péssima!!!! As mentiras de Belarmino dão ao filme/documentário uma coerência genial, na medida em que são evasivas relativamente aos "ataques" do adversário - tal qual como num jogo de Boxe entre entrevistador e entrevistado!

O Belarmino é uma verdadeira Personagem, um português diferente, sem dúvida! Que interessa aqui discutir o seu carácter?...

 
At 10:06 da tarde, Blogger Flávio said...

Péssimo comentário, Anónimo. Eu nunca fiz nenhuma espécie de crítica ao filme nem lhe apontei qualquer 'incoerência' (por alguma razão lhe dei NOVE estrelas!). Também não fiz nenhum juizo de valor sobre o protagonista ('live and let live', é o meu lema), limitei-me a descrever as coisas como elas são. Por isso, das duas uma:

a) Ou achas que o Belarmino não é mentiroso, indisciplinado, etc. e, nesse caso, de certeza que não viste o mesmo filme que eu;

b) Ou reconheces o óbvio e achas que ele é efectivamente mentiroso e indisciplinado, mas identificas-te com essas características do senhor e por isso ficaste melindrado.

 
At 7:17 da tarde, Blogger José said...

Por acaso v. conheceram o Belarmino, de perto, a tocar ou a tentar tocar nele, com luvas de 16 onças, encebadas e mal cheirosas? Eu tive esse prazer. Finais dos anos 70, quando eu mais um grupo de gajos, aprendíamos com ele a dar uns directos de esquerda direita, mais uns cruzados, acompanhados dumas ganchadas. O gajo, que já não era novo, era um tipo fabuloso. Ao pé dele era só rir. Mal sabia uma letra mas era um ser-humano fabuloso. Era o típico portugas/chunga mas sempre de coluna direita. O gajo a caminhar era um gozo: gingão, dançarino, tinha alturas que parecia um pirilampo. Teve uma morte bera. Foi atropelado. Levou uma pancada pelos peitos e aquilo foi mortal. Fez-se em Lisboa, depois da morte dele, para arranjar algum para a gorda (a mulher), uma festa de homenagem, no Coliseu, com o Abecassis, na altura, presidente da Câmara, a apadrinhar. Foi lindo. Uma série de combates. O Coliseu cheio de maralhal que conhecia e admirava o baixinho. Grande comoção. Enfim... Uma vida de muitas derrotas e muito pouco de vitórias, infelizmente, como a maioria do nosso Povo.

Zé (Laranjeiro)

 
At 12:08 da tarde, Blogger sawamu said...

dr Ricardo meu nome é Adriano acho que sou o um dos poucos pugilistas que conhecem a historia de Belarmino e gostaria de fazer uma pergunta algum dia o sr subiu em um ringue se o sr me diser que sim sem mentir eu continuo

 
At 2:35 da tarde, Anonymous Rafael Prata said...

Revi ontem na Cinemateca Portuguesa este filme, numa cópia que (salvo erro) inverteu a imagem de algumas cenas; p.ex., a porta de vidro pirogravado da pensão/restaurante A PROVINCIANA lê-se tal qual... a partir do interior, quando essas letras só eram assim legíveis a partir da rua - como aliás se vê na versão em VHS (da própria Cinemateca Portuguesa), editada pela Lusomundo em 1993.

A crítica do cine7 à personagem Belarmino é justa. O Belarmino era um homem baixo, que conheci ao passar por ele anos a fio (1965-1971), quando ele estava fardado de «almirante» à porta do Bolero Bar, quase na esquina da Rua de S. Lázaro com a Av. Almirante Reis. Hoje loja de roupas «chinesas», era então bar de alterne antes que as portuguesas fossem substituídas por espanholas e brasileiras. Eu nunca poderia imaginar que aquele senhor fosse um terrível «boxeiro», ou um mero «vadio» - só para usar os termos que ele aplicava a si próprio.

Baixo, analfabeto («analfabeto não! que eu depois fiz a 3ª classe...» diria ele no próximo comentário deste blog), esfomeado («esfomeado não, só que às vezes apetecia-me almoçar, ou jantar, e não podia!» citando-o de cor, da entrevista filmada), mulherengo por vocação (o seu comportamento com as passantes ou as belas mulheres que a produção colocou numa paragem de eléctrico perto de si, para melhor efeito), de profissão «engraixador e depois lavador», Belarmino tinha mãe e três irmãos de que fala pouco ou nada - e nenhum futuro, como tantos assim, antes e depois dele.

Nem em 1964 quando vi o filme pela primeira vez, nem hoje quando o revi pela sétima vez, me pareceu que Baptista Bastos (que fora seu colega de box no SCP), nem Fernando Lopes cometem o erro de tomar como suas as declarações (por vezes contraditórias) de Belarmino, ou as de Albano Martins. Da negação veemente do «chiqué» (espanholismo para combate combinado, no boxe como na luta livre) por Belarmino, à esquiva hábil mas sem negação de Albano, fica-nos a convicção de que a mentira no «desporto» não é só do futebol, nem do final do século 20…

Foi com pena que li a adjectivação neste blog de «gorda» para referir a Maria Amélia, a mulher de Belarmina e mãe da sua filha Ana Paula. As breves histórias delas estão também no filme Belarmino, e a imagem da Maria Amélia é a prova de que Belarmino sabia escolher as mulheres, também pelo físico.

O tempo tudo degrada. Enquanto o filme durar, fica-nos um retrato duro de um sobrevivente pouco heróico, que teve tão pouco com que ocupar a sua cabeça, que sonhou demais. Os doutores, engenheiros e arquitectos hoje, já não são «vadios» que procurem, nas salas de boxe, quem lhes «dê na cara». Hoje são uns senhores que fazem «chiqué» nos processos sem dar a cara. O tempo tudo degrada, incluindo a alma. Daí que o Belarmino baixote nos chegue a parecer grande, com o seu jogo de pés no túnel do estádio novo do Sporting (em 1964), e com o seu jogo de língua face ao implacável perguntador, Baptista Bastos.

 
At 11:35 da manhã, Anonymous fernando garrido said...

pois de ele era mentiroso ou nao isso nao sei so sei que fui eu que o atropelei quando ele ia atrvessar aestrada em almada e foi a causa da morte dele coitado.

 
At 6:49 da manhã, Anonymous Carlos Santos said...

Não sou "patrioteiro" mas mete-me nojo este tipo de considerações generalistas e negativas sobre o que é o povo português. "a mediocridade, a ignorância, a gabarolice e a indisciplina" são qualidades que certamente assistem ao sr. Flávio Sousa, contudo não se reveja no povo ao qual tem a sorte de pertencer, embora não o mereça! medíocre é o jornalista que tem a infelicidade de produzir este tipo de considerações sobre um documentário e que arrisca apostar em generalizar para a totalidade da alma do povo de Portugal.
A diplomata francesa que não tem nome e aparentemente tem credibilidade para o sr. Flávio, seria, em qualquer pais com jornalistas civilizados, deitada por terra, logo a própria consideração sobre a China e Portugal é falsa e para ambos os casos é ofensiva! Mas ena, ela é francesa e ainda por cima diplomata, deve ser verdade!! Foi esse tipo de mentalidade que deitou o pais abaixo, não os Belarminos desta vida, que lutaram com o que têm, ainda que seja inferior aos demais, isso sim é o que representa a alma nacional. tenha vergonha e emigre para França. não perca tempo por aqui!!

 
At 10:33 da manhã, Anonymous Ana Isabel said...

Entristece-me quando um filme tão complexo como Belarmino é tão mal interpretado. Ponha-lhe um contexto em cima, uma época, uma cidade, um país, um cinema que até à data pouco mais conhecia que as comédias, divertidas claro, mas alimentadas por uma ditadura que se esforçava em manter as pessoas alegremente ignorantes. Depois, volte a ver Belarmino.

 
At 10:47 da manhã, Anonymous Anónimo said...

"Belarmino é uma lição de respeito, e vem assim demonstrar uma verdade que me é cara: a de que o respeito por cada um, implica o respeito também pela sua mentira, que é a consciência moral do respeito pela sua liberdade" APV

 
At 10:48 da manhã, Anonymous Anónimo said...

"Belarmino é uma lição de respeito, e vem assim demonstrar uma verdade que me é cara: a de que o respeito por cada um, implica o respeito também pela sua mentira, que é a consciência moral do respeito pela sua liberdade" APV

 

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