segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Fado Corrido

Título Original:
"Fado Corrido" (1964)

Realização:
Jorge Brum do Canto

Argumento:
Jorge Brum do Canto, baseado num conto de David Mourão Ferreira

Actores:
Amália Rodrigues
Jorge Brum do Canto
Florbela Queiroz
João Mota


Se há qualquer coisa a acentuar acerca de “Fado Corrido” é que se situa algures na charneira entre o cinema clássico português e as novas tendências do cinema dos anos 60. Pode-se afirmar também que beneficia dessa posição sem perder a solidez ou sem cair sob contradições. Há aqui maior liberdade na recriação das mentalidades e dos costumes da época do que em filmes de épocas anteriores. Vislumbram-se nesta história manifestações de práticas menos lícitas, como o contrabando ou o amor liberal.

Há nesta obra um olhar circunspecto, sisudo e sóbrio sobre a Lisboa das avenidas novas e dos carros em movimento sincronizado. O filme utiliza ingredientes da receita de sucesso tradicional (tal como o Fado e a Tourada) mas aqui a fórmula é claramente diferente. Viviam-se novos anos – aqueles em que se estrearam “Verdes Anos” de Paulo Rocha ou “Belarmino” de Fernando Lopes.

O filme de Jorge Brum do Canto parece assentar sobre uma visão sombria da sociedade. A imagem a preto e branco ajuda (e imenso) a conferir uma dimensão cinzenta a tudo o que vemos. Parece haver um certo desencantamento nos personagens. Uma falta de ambição ou um acomodamento à realidade a que estão votados. Será talvez o retrato de um Portugal sem ânimo, sem grandes expectativas políticas e sociais.

A imagem sombria de Portugal virá dos olhos do realizador que filma ou do espírito do seu personagem principal, o fidalgo D. Luís, também encarnado por Brum do Canto? É difícil apurar. Mas essa recriação é bastante genuína e espontânea. O mesmo não se pode aplicar aos momentos (supostamente) mais cómicos do filme em que se parodiam os gostos da nova geração. Florbela Queiroz e João Mota acentuam neste segmento da obra (o menos notável) uma caricatura exagerada desses jovens – caricatura demasiado superficial, irrelevante e desinspirada.

No centro do filme está Amália Rodrigues no auge absoluto da sua fama. Ela que é um valor cultural precioso do Portugal salazarista – mas que está muito para além dele. Não a vemos aqui num registo ingénuo semelhante ao dos seus filmes mais famosos: “Capas Negras” e “Fado – História de Uma Cantadeira”, ambos da década de 40. Amália surge aqui com uma maturidade acrescida. E a sua fotogenia e brilho diante das câmaras são mais evidentes em “Fado Corrido” e no filme franco-português “Ilhas Encantadas” que protagonizaria no ano seguinte.

A história é estruturalmente simples e parte de um conto de David Mourão-Ferreira intitulado “Agora: Fado Corrido” (que pertence ao seu livro de novelas “Gaivotas em Terra”) – De resto, repare-se que o filme parte de uma visão das gaivotas sobre o Tejo. E volta a ela, no fim. E do mesmo modo, o poema de Alexandre O’Neill que parece aqui muitíssimo adequado, começa com «Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa…»

Amália é Maria do Amparo, amante de D. Luís. O homem persegue-a pelos sítios por onde ela se esconde dele; e quer impor-lhe uma relação que é essencial para si mas demasiado dolorosa para ela. D. Luís é um homem antipático e amargo. Poderá amá-la do seu modo pessoal mas também a engana e menospreza. E apenas a avalia pelos seus critérios pessoais.

O Fado surge aqui como o perfeito veículo para transmissão desse espírito perturbado. Amália canta “Gaivota” e “Estranha Forma de Vida” (com poema seu). Vemo-la cantar em público, em casas de Fado. Mas também no som do rádio ou dos discos que os personagens ouvem. E numa cena visualmente interessante, D. Luís tenta perturbar o seu canto, abrindo consecutivamente garrafas de champanhe. Cada explosão surge como um insulto ao seu desempenho e a tudo o que ela é.

“Fado Corrido” não é um filme musical mas um filme com música. Parte da criação musical que ambienta o filme vem das cordas da guitarra de Carlos Paredes – ele que já havia criado a belíssima música de “Verdes Anos”. De resto, o fado que aqui sobressai é o mais sombrio (e não o mais corrido e ligeiro, como o título parece sugerir). O tema alegre “Cantiga da Boa Gente” não é um fado mas uma canção que contradiz todo o espírito da obra e se parece opor a ele: veicula o ideal da felicidade quando se é pobre e honesto quando nada no filme parece transmitir tal ideal de santidade ou de apego à honradez.

Em papéis secundários, encontramos duas boas actrizes, Irene Cruz e Isabel de Castro. Esta última interpreta aquela que será talvez a única pessoa no mundo a amar D. Luís, que parece gostar dele sem despender contemplações em torno do seu egoísmo. E que parece apiedar-se da angústia com que ele enfrenta a velhice e uma certa crise existencia.

Aconselho o filme. Mas é difícil encontrá-lo. Havia uma edição em VHS para venda directa. O ano passado foi projectado na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa. Esperemos que lancem o filme em DVD. Não sendo uma jóia cinematográfica preciosa, é um interessante retrato social de um certo Portugal dos anos 60. Vale pelo que representa, pela belíssima fotografia, pelos trabalhos interpretativos de Brum do Canto e de Amália. Vale pela forma como vemos alguns fados cinematografados. Afinal, somando tudo isto, não vale assim tão pouco mas ninguém ouve falar dele. O que é pena.

® José Varregoso

1 Comments:

At 3:22 da tarde, Anonymous Anónimo said...

boa tarde

gostaria de saber se este filme "fado corrido" se encontra à venda em dvd. ou, se possivel, diga-me onde posso visioná-lo.

cumprimentos

 

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