quarta-feira, junho 28, 2006

Melinda e Melinda

Título Original:
"Melinda and Melinda" (2004)

Realização:
Woody Allen

Argumento:
Woody Allen

Actores:
Radha Mitchell - Melinda
Chloë Sevigny - Laurel
Amanda Peet - Susan
Will Ferrell - Hobie


Há quem acuse Woody Allen de ter entrado numa fase pouco criativa e demasiado repetitiva, com recurso constante aos mesmos ambientes, personagens-tipo e referências. De facto, os seus últimos filmes não têm marcado propriamente pela surpresa, embora contenham traços de eficácia - os diálogos, sobretudo - que permitem ignorar, pelo menos parcialmente, alguma insistência na auto-citação.

A Vida e Tudo o Mais, de 2004, foi talvez o mais refrescante filme do realizador nos últimos anos, convocando o par Jason Biggs/Christina Ricci para uma bem-conseguida comédia romântica.
Melinda e Melinda, a sua nova obra, apresenta uma premissa diferente do filme anterior e aposta na exploração das peripécias de uma personagem - Melinda - segundo duas perspectivas: uma tendencialmente cómica, outra baseada numa vertente mais dramática.

O cinema de Allen sempre conciliou, com maior ou menor intensidade, estas duas componentes, por isso Melinda e Melinda não traz nada que o realizador não tenha já abordado. De resto, a história cómica de Melinda adquire, aos poucos, episódios mais dramáticos, enquanto que a história inicialmente trágica incorpora, a espaços, momentos de humor.

Esta interligação, quase inevitável na filmografia do cineasta, já não é propriamente uma novidade, mas tal não seria problemático para Melinda e Melinda caso o ponto de partida fosse trabalhado com consistência e uma forte carga inventiva. Contudo, esta(s) história(s) de uma mulher emocionalmente vulnerável que encontra algum calor humano ao interromper um jantar de amigos e vizinhos - naturalmente, ligados ao meio artístico -, que até começa de forma promissora, não gera muitas surpresas ou particular envolvência.

O tipo de personagens de Melinda e Melinda segue a linha habitual de Allen, ou seja, são neuróticas q.b., vivem amores desencontrados e encontram-se algo desorientadas. O problema é que nenhuma suscita muita empatia ou complexidade, em parte porque não há nenhuma que seja muito explorada, com eventual excepção da(s) protagonista(s). É pena, porque no vasto elenco há actores que mereciam personagens mais fortes e consistentes - Chloë Sevigny (sempre apelativa, ainda que subaproveitada), Amanda Peet, Chiwetel Ejiofor ou mesmo um irregular Will Ferrell -, mas que aqui mais não são do que figuras bidimensionais e pouco carismáticas.
A protagonista Radha Mitchell é competente, mas Melinda - tanto na vertente cómica como na dramática - não é uma personagem especialmente aliciante, e por isso o filme nunca chega a conquistar.

Claro que, sendo Melinda e Melinda produto da criatividade de Woody Allen, contém ainda episódios cativantes e divertidos, com cenas bem-escritas e profissionalmente filmadas, mas o resultado final é demasiado fragmentado e inconstante.

O filme é geralmente agradável de seguir, mas pouco mais do que isso, nunca efectuando muitos desvios a uma rotina que tem marcado a obra recente do realizador.
Melinda e Melinda, apesar de algumas tentativas de inovação na forma, acaba por ser mais do mesmo em termos de conteúdo e apresenta Woody Allen em piloto automático, sem grandes ousadias ou rupturas. No entanto, esta opinião poderá variar e ser contrariada, mediante o ponto de vista, pois as formas de perspectivar uma história são, como o filme demonstra, múltiplas e abrangentes.

® Gonçalo Sá

2 Comments:

At 8:35 da tarde, Blogger cine-asia said...

É engraçado que tu deste 5/10 enquanto que no blogue "play that movie again" o Melinda & Melinda tem a classificação de 10/10. É fantástico como o cinema é tão subjectivo...lol.

Neste caso, concordo contigo Gonçalo. Divide-se o mal pelas aldeias, 2,5 pontos para cada Melinda. Vê-se bem, mas mais nada do que isso...

abraço

Sérgio Lopes

 
At 1:53 da manhã, Blogger gonn1000 said...

Não é só o cinema, também as perspectivas sobre a vida são subjectivas, como este filme evidencia. Vê-se bem e pouco mais, pois. Abraço.

 

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