segunda-feira, novembro 21, 2005

O Milagre Segundo Salomé

Título Original:
“O Milagre Segundo Salomé” (2004)

Realização:
Mário Barroso

Argumento:
Carlos Saboga, baseado no romance homónimo de José Rodrigues Miguéis

Actores:
Ana Bandeira - Salomé
Nicolau Breyner - Sertório Cerqueira
Ricardo Pereira - Gabriel
Paulo Pires - Mota Santos


Portugal, 1917. O país vive uma grande agitação política e social e diz-se que em Fátima a virgem apareceu a três pastorinhos. Salomé, uma jovem vinda da província, é uma das muitas raparigas que animam um dos mais conhecidos bordéis de Lisboa, mas é uma rapariga tão especial que um dia um senhor de posses convida-a para viver em sua casa e apresenta-a à alta sociedade de Lisboa. Mas o seu passado não deixará de a perseguir e Salomé, que pensava que este seria para ela o começo de uma nova vida, vai afinal acabar por perder tudo ao tornar-se personagem involuntária desse milagre que então agitou o país...

Trata-se da primeira longa-metragem do até aqui director de fotografia Mário Barroso inspirada no romance homónimo de José Rodrigues Miguéis. E que bela surpresa este O Milagre Segundo Salomé, realizado com sobriedade, rigor e competência, sendo claramente um pioneiro naquilo que poderá ser o cinema português de qualidade sem descurar o valor artístico nem o valor comercial.

Após visionar os terrivelmente fracos Sorte Nula e Kiss Me (Nem a beleza de Marisa Cruz salva a película), fiquei completamente desiludido com o suposto cinema comercial português. Passado algum período de abstinência de cinema português, eis que descubro O Milagre Segundo Salomé que claramente aponta o caminho a seguir para a evolução do nosso cinema mainstream.

Se realizadores como Ingmar Bergman, Pedro Almodover, Fellini, Kusturica, entre outros, são cineastas autores devido à capacidade de construírem um cinema independente com a componente de acessibilidade ao grande público, isto é, mantêm os seus traços característicos de originalidade mas obtêm aclamação pública, porque não aparecem nomes no panorama português que se destaquem? Excepção feita, é claro, a Manuel de Oliveira ou João César Monteiro, nomes ímpares no panorama português, mas cujas películas não são acessíveis ao grande público. È uma boa questão, pois não é necessário ter grandes meios para se contar uma bela estória…

É o caso de O Milagre Segundo Salomé. Mário Barroso dirige maioritariamente actores de televisão com mestria criando uma película a todos os níveis surpreendente. A reconstituição de época é brilhante servida por um excelente guarda-roupa e uma bela fotografia. Tendo o conturbado ano de 1917 como cenário de fundo, Mário Barroso centra a narrativa em Salomé (Ana Bandeira), uma prostituta de um conhecido bordel de Lisboa, que tendo algo de especial, é cobiçada por vários homens, entre eles Zambujeira (Nicolau Breyner), um banqueiro rico, e Gabriel (Ricardo Pereira), um jovem revolucionário Anti-Regime. Este triângulo amoroso e o envolvimento infortúnio de Salomé no fenómeno da aparição de N. Sra. de Fátima aos Pastorinhos irão provocar consequências irreversíveis na sua vida

E é no argumento que se poderá apontar o único defeito do filme. Apesar da narrativa fluir escorreita e da excelente reconstituição histórica, falta algum fio condutor entre os vários conflitos vividos por Salomé. Parece que Mário Barroso pretende explorar vários aspectos da personagem, mas acaba por não conseguir fazê-lo da melhor forma, sendo um pouco superficial a abordagem do realizador. Se calhar porque o envolvimento de uma prostituta no fenómeno da aparição de Fátima teria de ser tratado de uma forma um pouco insinuada e superficial. Afinal de contas, para uma organização como a igreja católica, com tanto poder em Portugal, não seria boa ideia o realizador criar algum tipo de inimizades. Ainda assim, não deixa de ser um filme algo provocador e audaz com qualidade pouco vista no panorama da sétima Arte em Portugal.

® Sérgio Lopes

4 Comments:

At 10:16 da tarde, Blogger Paulo said...

Não gostei muito deste "Milagre...". As imagens são de uma beleza indesmentível, assim como são também óptimas as interpretações de Nicolau Breyner, Paulo Pires e Margarida Vila Nova. Mas penso que o argumento é algo pobre e não desenvolve o tema da melhor maneira. Ainda assim, e atendendo às reacções positivas de quem o tem visto, não trará grande mal uma espreitadela.

 
At 10:25 da tarde, Blogger cine-asia said...

Eu devo confessar que fiquei agradavelmente surpreendido, pois pela primeira vez vi actores a representar de forma natural (à excepção talvez do Ricardo Pereira). Acho k tem uma dinâmica pioneira no panorama português. Não sendo nenhuma obra-prima, vale a pena o visionamento não achas?

 
At 2:35 da tarde, Blogger serEmot said...

Também não gostei muito do filme, a história não convence muito. Apesar disso parece-me uma tentativa válida no cinema português, que sim, parece-me valer o visionamento. Recordo a boa interpretação de Margarida Vila Nova, entre outras.
Achei curioso o momento em que a actriz aparece nua, especialmente porque recebi noutro dia um forward com um video desse momento especifico, que me foi enviado por alguém que não viu o filme mas gostou do video...

 
At 6:11 da tarde, Blogger Ana Silva said...

vi este filme no festival internac. de cinem. de Montreal, no Canada onde tenho residencia, e gostei imenso, pela fotografia, direcçao, actores, historia muito interessante e que me transportou ao livro prohibido ( nessa época ) das cartas sobre esse milagre de Fatima, a miséria, fascismo, e fanatismo desse tempo...a sala estava cheia e os Quebecois que esgotaram a sala, apreciaram verdadeiramente este filme,e se bém me lembro fizeram imensas perguntas interessantes ao realisador que se encontrava na sala..

 

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