quinta-feira, julho 06, 2006

O Quarto Mandamento

Título Original:
“The Magnificent Ambersons” (1942)

Realização:
Orson Welles

Argumento:
Orson Welles

Actores:
Joseph Cotten – Eugene Morgan
Dolores Costello – Isabel Amberson
Tim Holt – George Amberson
Agnes Moorehead – Fanny Amberson


Logo a seguir ao filme mais aclamado de todos os tempos (obviamente estou-me a referir a O Mundo a Seus Pés), Orson Welles realizou um ainda melhor. Não há contradição nenhuma – no “meu mundo” é que O Quarto Mandamento se superioriza ao belíssimo filme que é o anterior referido, embora seja verdade não haver muitos “mundos” assim. A segunda longa-metragem de Welles é o prolongamento superior do apuradíssimo olho cinematográfico que já se havia evidenciado na primeira obra do atribulado realizador americano.

Orson Welles foi um cineasta muito infeliz na medida em que passou uma carreira recheadíssima de problemas com os estúdios para os quais trabalhou, sendo imensamente incompreendido por estes, e por sua vez, apresentando-se constantemente desprovido de liberdade criativa. Este seu O Quarto Mandamento não foge a essas atribulações artísticas, visto que muita metragem da versão que Welles pretendia apresentar foi destruída pelo estúdio, mas a verdade é que esta versão que ficou para a posterioridade não deixa de ser um portentoso drama familiar, digno do epíteto obra-prima.

De título original The Magnificent Ambersons, o filme debruça o seu foco na família Amberson. Esta, muito abastada e com um historial seriamente respeitável, irá passar por uma turbulência problemática que estaria bem longe de imaginar. Isabel Amberson (Dolores Costello), a filha do patriarca, casa com o discreto Wilbur Minafer (Don Dillaway), de quem tem um filho, George (Tim Holt). George torna-se uma criança mimada em demasia, excessivamente orgulhosa e insolente em igual medida. Já em jovem adulto, a história da sua personalidade não se altera. É então que a certa altura reaparece um amigo da família Amberson, que num passado distante, anterior ao casamento de Isabel, havia tido um caso amoroso com esta. Esse amigo é o cordial Eugene Morgan (Joseph Cotten) e os olhos terrivelmente maldosos com que George o verá e a não menos simpática forma como o tratará irá abalar os Amberson de uma forma totalmente inesperada.

Dotado de uma fotografia mítica e muito clássica e de uma banda sonora igualmente a transparecer uma considerável carga mítica, O Quarto Mandamento é uma obra que irradia um certo teatralismo, mas tal conceito não é acompanhado dos males que várias vezes povoam esse estilo interpretativo, visto os intérpretes, quando necessário, espelharem sentidamente e nunca com selo irritativo as emoções que perderiam ao permanecerem contidas. Refira-se, portanto, a boa forma de todos eles, mas quem mais impressiona é Joseph Cotten, do alto da sua fascinante sobriedade que já lhe conhecera em Mentira, O Terceiro Homem, A Jornada do Medo, etc. E, para tal efeito, contribui muito um argumento com o nível deste, de uma inteligência admirável, proporcionando profundidade aos personagens e tratando o drama familiar com a complexidade anti-simplista necessária.

Com cenas marcantes, tal como acontece com uma boa gama de planos, O Quarto Mandamento, já na recta final, dá a impressão de poder assumir o desfecho em algumas ocasiões. Embora não o faça com a visão de Welles, o seu remate, que nunca saberemos se foi o mais acertado e na altura mais propícia, é estrondosamente satisfatório. Não obstante o autor máximo do filme não o ter manejado com a liberdade pretendida, este assume-se categoricamente como uma lição de cinema, mas também de vida.

® Artur Almeida

2 Comments:

At 1:24 da tarde, Blogger wasted blues said...

Grande, grande filme de Welles... mas será correcto dizer "de Welles"? É que a sua versão, essa, nunca a vimos...

 
At 2:21 da manhã, Anonymous Artur Almeida said...

E nunca a veremos, cara Wasted Blues- destruída:(

Agora, a pertinência que imprimiste bem na tua questão fez-me pensar uma coisa: e então esses imensos filmes(e estão sempre a aumentar) em que os avarentos dos produtores dão, muito infelizmente, BEM MAIS do que uma "mãozinha" no desenvolvimento artístico dos projectos que faz mais sentido de chamar de retrocesso artístico, putrefazendo a visão pessoal dos realizadores?

Imaginando Welles não ser considerado o autor oficial deste "O Quarto Mandamento", ele seria-o considerado somente por... "Citizen Kane"? Parece-me que sim, e bem estranho que seria. E isso talvez implicasse uma maior responsabilidade aos malditos produtores a respeito do filme como produto final, já que se acham as autoridades artísticas do cinema, quando são na verdade uma cambada de avarentos cegos e... reais destruidores do cinema como arte. E é isso que ele é, arte. É pena, de um extremo nível, é que seja altamente corrompida por tais indivíduos...

 

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