quarta-feira, setembro 07, 2005

A Costa dos Murmúrios

Título Original:
"A Costa dos Murmúrios" (2004)

Realização:
Margarida Cardoso

Argumento:
Lídia Jorge

Actores:
Beatriz Batarda - Evita
Filipe Duarte - Luís
Mónica Calle - Helena
Adriano Luz - Forza Leal


Nos últimos anos, o cinema português tem abordado frequentemente um tema central da História recente do país, e que permanece ainda como um capítulo envolto em alguma controvérsia: a guerra colonial.
Os Imortais, de António-Pedro Vasconcelos, ou Preto e Branco, de José Carlos de Oliveira, proporcionaram algumas perspectivas sobre esse episódio, e A Costa dos Murmúrios, a primeira longa-metragem de Margarida Cardoso, é mais um exemplo que revisita ambientes desse período. Contudo, esta estreia não é apenas mais um filme centrado na guerra colonial, uma vez que oferece um inusitado, mas cativante desvio aos típicos formatos e estruturas do género, gerando um drama introspectivo e sereno que se desenrola numa época conturbada .

Baseado no romance homónimo de Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios foca as experiências de Evita, uma jovem recém-casada que viaja para Moçambique para acompanhar o marido, Luís, que cumpre aí o serviço militar. Pouco depois de chegarem, Luís parte para uma operação militar (que se prevê ser a última, finalizando a guerra) e Evita fica sozinha, deparando-se com um cenário entre o inquietante e o hostil, envolvendo-se numa atmosfera na qual não se revê e que frequentemente questiona.

Beatriz Batarda encarna a protagonista e torna Evita numa personagem não menos intrigante do que o ambiente que a cerca, apresentando uma interpretação contida e subtil e confirmando-se como uma das mais versáteis e credíveis actrizes portuguesas da actualidade (para eventuais cépticos, basta comparar o seu visceral desempenho em Noite Escura, num registo em tudo distante da sobriedade de Evita). Através das peripécias de protagonista e da desolação com que esta se confronta, A Costa dos Murmúrios vai dando conta dos absurdos e contrariedades de uma guerra sem sentido (se é que alguma o tem) e das múltiplas ressonâncias que os seus trágicos eventos despoletaram.

Margarida Cardoso proporciona um retrato perspicaz e atento, recorrendo a uma cuidada reconstituição de época, uma sólida direcção de actores (além de Batarda, destaque para Filipe Duarte e Mónica Calle), uma apelativa fotografia, banda sonora apropriada e um ritmo lento e apaziguado, mas raramente enfadonho.
A realizadora consegue trabalhar o material literário (que serve de base ao argumento) de forma eficaz, adaptando-o à linguagem cinematográfica e sendo bem-sucedida na construção de absorventes climas e tonalidades. Por vezes, há traços de um cinema documental (o que nem é de estranhar, tendo em conta que a cineasta já teve alguns projectos nesses domínios), com estilhaços de um realismo cru e marcante, mas A Costa dos Murmúrios surpreende sobretudo pela aura brumosa, contemplativa, melancólica e estranhamente hipnótica que carrega, com certos momentos vincados por uma serenidade claustrofóbica. Essa amálgama de realismo com atmosferas inebriantes nem sempre é bem sucedida, mas é suficiente para tornar o filme numa obra singular, suscitando uma vibração rara no cinema português.

A Costa dos Murmúrios não se esgota na temática da guerra colonial, mas recorre a esta para percorrer um conjunto de questões como a solidão, a identidade, a confiança, a mentira, o amor, a condição feminina, a liberdade ou o choque de culturas. O resultado é profícuo e promissor, gerando um dos melhores filmes portugueses dos últimos anos, o que não faz de A Costa dos Murmúrios uma obra-prima mas chega para a tornar numa recomendável proposta cinematográfica.

® Gonçalo Sá

4 Comments:

At 1:36 da tarde, Anonymous André Batista said...

A Beatriz Batarda é sem dúvida alguma a mmelhor actriz nacional do momento. O filme é bem interessante, e bem melhor que á maioria dos filmes portugueses. Gostei da tua análise! See ya!

 
At 1:56 da tarde, Blogger gonn1000 said...

Não sei se será a melhor, mas é sem dúvida uma grande actriz. E o filme também é bastante meritório, realmente. Obrigado :)

 
At 12:57 da manhã, Blogger Paulo said...

Eu cá gosto também bastante da xôdona Beatriz e penso que o filme visualmente é bastante belo... e ficamo-nos por aqui. Quanto ao resto, achei-o essencialmente falhado e desinteressante. E o pior é que pelo trailer e pela "apresentação" visual do filme, ia com grandes expectativas, mas saí tremendamente desiludido.

 
At 10:34 da manhã, Blogger gonn1000 said...

O filme tem alguns problemas de ritmo, mas ainda assim apresenta um argumento interessante e pertinente. Mas talvez o que tem de melhor seja mesmo a vertente visual...

 

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