terça-feira, setembro 06, 2005

Non, ou a Vã Glória de Mandar

Título Original:
"Non, ou a Vã Glória de Mandar" (1990)

Realização:
Manoel de Oliveira

Argumento:
Manoel de Oliveira

Actores:
Luís Miguel Cintra - Alferes Cabrita
Luís Lucas - Cabo Brito
Diogo Dória - Furriel Manuel
Miguel Guilherme - Soldado Salvador


Baseado na história de Portugal, Non, ou a Vã Glória de Mandar é um filme com ares de documentário que tem como base a reconstituição de alguns dos principais episódios bélicos que o país já conheceu, nomeadamente aqueles do qual a nação saiu vencida. Através de um argumento fragmentado entre o presente e o passado, Manoel de Oliveira construiu aqui uma peculiar reflexão sobre a história de Portugal desde o tempo da lenda de Viriato até à Guerra Colonial (tema estreado no cinema português com este filme), passando por D. Afonso Henriques, a batalha de Toro, o decepado D. Duarte de Almeida, a união dinástica com Castela através do casamento dos infantes Afonso e Isabel, a Ilha dos Amores de Luís de Camões, a morte do príncipe D. João, a infeliz batalha histórica de Alcácer Quibir, o malogrado destino de D. Sebastião, e por fim o derradeiro final em terras africanas, no dia 25 de Abril de 1974 – data em que toda a acção do filme ocorre no presente, e que representa o termo do sonho português do Quinto Império e do desejo de sermos maiores do que a vontade.

A acção de Non, ou a Vã Glória de Mandar começa e acaba em África, e desenvolve-se toda através um complexo e estruturado diálogo entre um jovem pelotão português e o seu sábio alferes Cabrita. Esta é uma conversa recheada de flashbacks/saltos temporais que ilustram o que aquele grupo debate, e que exemplificam o que aconteceu no respectivo momento da história portuguesa que ali é discutido. Através da conversa que se desenrola com o alferes Cabrita, o pelotão vai debatendo a história de país, acabando por se debruçar única e exclusivamente nas derrotas e fracassos que a nação sofreu ao longo dos séculos contra os romanos, espanhóis e árabes, e que ali, no meio do mato a lutar por uma terra que não é sua por natureza, acaba por criar uma atmosfera de melancolia e pré-derrota perante esse sentimento tão patriota que é a saudade. Um enredo que faz daquele pelotão o último grupo de guerreiros que ainda quer a exaltação do país, mas que, infelizmente, já está demasiado cansado para tal. A glória soa a vã e o non é a sua resposta a tudo aquilo.

Esta obra de Manoel de Oliveira tem o seu q.b. de filme filosófico e épico, tanto no modo como os diálogos são expostos sobre a forma de reflexões e monólogos a dois, como pelas mensagens moralistas que existem por detrás das aventuras aqui narradas sobre o passado imperial. Isto é principalmente visível na personagem do alfares Cabrita, que é inclusive o guia nesta expedição pela história de Portugal. Representando a voz da sabedoria no seu estatuto de professor amador, o oficial é ao mesmo tempo protagonista dos variados episódios nacionais, juntamente com os seus furriéis, cabos e soldados, através desses saltos temporais onde eles transformam-se em diversas personagens importantes da história de Portugal, e onde testemunham as várias derrotas e acontecimentos infelizes que conduziram à decadência do ego nacional, demostrando o quanto a glória pode ser vã.
Para além da sua importância didáctica enquanto filme português com forte carga de informação referente à história do país, Non, ou a Vã Glória de Mandar tem um dos seus principais trunfos na sublime caracterização pormenorizada dos episódios que o filme conta, desde os cenários, aos diálogos, ao guarda-roupa e até à própria acção, que nunca peca pela falta de ritmo ou de respeito para com a época histórica que está a expor. Dois dos exemplos mais perfeitos disso são a excelente reconstituição da batalha de Alcácer Quibir, que conta com um enorme número de adereços, de cavalos e de figurantes, nesta que é possivelmente uma das melhores e mais grandiosas cenas já expostas num filme nacional; e a majestosa criação do episódio de Ilha dos Amores d’Os Lusíadas, onde a pesada caracterização dos navegantes se opõe à nudez das ninfas e cúpidos locais, numa atmosfera erotico-fantástica que expõe grandiosamente a ideia criada pelo poeta Luís de Camões em Os Lusíadas, num cenário simplesmente divino e belo.

Aquando do seu lançamento em 1990, Non ou a Vã Glória de Mandar foi considerado a mais ambiciosa produção de sempre do cinema nacional, principalmente pelo facto de Oliveira mostrar a história do país pelo lado da derrota e não da vitória. A imprensa italiana, francesa e espanhola, deliciada com a película, apelidou o filme de “sonhos negros de Portugal” e “salvador” da edição desse ano do Festival de Cannes, devido à sua excelente qualidade. A obra acabou depois por ser galardoada nessa edição com o prémio Especial da Crítica Internacional, e Manoel de Oliveira foi alvo de uma especial homenagem por parte do júri.

No decorrer da promoção do filme, Manoel de Oliveira afirmou numa entrevista que gostava que o público se habituasse mais aos seus filmes. Contudo, ainda hoje, passado mais de uma década desde o lançamento de Non, ou a Vã Glória de Mandar, o desejo do cineasta continua a ser uma utopia difícil de se tornar realidade. Culpa de realizador? Parcialmente talvez, mas não na sua totalidade, pois (em muitos dos) seus filmes a qualidade é visível, concreta e realista. O público, esse, é que infelizmente não. Preconceito? Subestimação? Opiniões enraizadas do cinema português? As respostas podem ser diversificadas ou até impossíveis de descobrir, mas o final é única e simplesmente o mesmo nesta inimizade: é o público que perde, e non Oliveira.

® Fábio Guerreiro

3 Comments:

At 6:40 da tarde, Blogger Paulo said...

A minha relação com o filme não é particularmente positiva. Vejo-o, por um lado, como dizes, como um excelente relato de vários episódios da História de Portugal, mais concretamente de carácter bélico. E Oliveira consegue planos fabulosos em algumas cenas, de um apuro visual delicioso para os olhos. Mas no geral, o filme não me fascinou por aí além. Não acho que resulte bem como objecto cinematográfico, em termos de ritmo, interpretações, etc... Claro que é uma obra com a marca de autor bem vincada, mas sinceramente não consigo gostar por aí além.

 
At 11:33 da manhã, Blogger David Santos said...

uma viagem por todas ou algumas desgraças da nossa historia de portugal.
É idea é mto boa.
Mas seria demais pedir um bocadinho mas de dinamismo, de ritmo.
Ora o Michael Bay a fazer este filme a cena de Alcacer Quibir era demais...
uiiiiii o que eu fui dizer
ahahahahahah

 
At 10:30 da manhã, Anonymous Ramesses said...

Bom dia,

Por favor, não sabem onde podia encontrar esse filme? Existe alguma página onde se pode descarregar? Gostaria de o ver mas sendo dum país ausente, não posso encontrá-lo nas nossas videotecas.

Antecipadamente muito grato pelos seus conselhos

Ramesses@seznam.cz

 

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