sexta-feira, abril 06, 2007

O Véu Pintado

Título Original:
"The Painted Veil" (2006)

Realização:
John Curran

Argumento:
Ron Nyswaner & W. Somerset Maugham

Actores:
Naomi Watts - Kitty Fane
Edward Norton - Walter Fane
Liev Schreiber - Charlie Townsend
Toby Jones - Waddington


O Véu Pintado é o novo projecto de John Curran, autor de cinema a fixar como Desencontros. Tal como neste, Naomi Watts é também uma das protagonistas, desta vez fazendo parelha com o veterano e competente Edward Norton.

Anos 20. Um bacteriologista bem sucedido e tímido apaixona-se à primeira vista por uma rapariga da alta sociedade, voluntariosa e mimada. Walter e Kitty (Norton e Watts) tornam-se um casal imperfeito, unido por conveniências e por muito pouco amor. E, quando Kitty é infiel, a vingança de Walter é silenciosa e provoca um twist na história – ele obriga-a a confrontar-se com um divórcio pouco prestigiante, ou a viajar com ele até ao interior da China para se instalar em pleno foco de uma epidemia de cólera. Sabendo à partida que o amante nunca se sacrificará por ela, Walter mostra daí em diante a sua mágoa desprezando Kitty, obrigando-a a crescer num cenário de solidão e morte e engolindo o amor que um dia teve por ela. Só que também ele aprenderá que nem tudo é definitivo na vida, e que nem sempre as suas ideias são certezas…

O Véu Pintado lembra-nos os cenários bucólicos e naturalistas de Ang Lee, juntando às belas paisagens do interior da China (as filmagens decorrem em Pequim) e ao espírito oriental tranquilo o tom emocional cru que vimos em Desencontros (embora aqui com um realismo que teria de ser reajustado aos anos 20, loucos mas sexualmente contidos). Tudo isto resulta na beleza triste de uma história que consegue cativar-nos profundamente, nem que seja apenas (e isso já é muito) pelos desempenhos eficientes e tocantes de Edward Norton e Naomi Watts – uma dupla improvável, mas muito bem encadeada. Ele mostra-nos mais uma vez o contraste entre a crueldade absoluta e a afectividade pura, numa simplicidade ainda e sempre marcante; ela representa um pilar de sensibilidade e superficialidade simultâneas, necessário ao papel. Ambos, evidenciam um contraste com química, numa relação conflituosa que acompanhamos emotivamente – munida de uma convincente e rica evolução dos personagens.

O filme perde talvez ritmo ao fim de algum tempo – sobretudo depois de vários flashbacks introduzidos no início, numa sucessão de avanços e recuos que imprimem movimento a um desenrolar originalmente lento (constituindo uma forma curiosa de relatar resumidamente a origem de tudo). Ainda assim, o conjunto de uma banda sonora singelamente bela e muito bem orientalizada (de Alexandre Desplat, vencedora de um Globo de Ouro), uma fotografia agradável, dois desempenhos portentosos -ainda que sem extremos- e uma história encantadora mas realista de crescimento pessoal e afectivo dão por bem aproveitadas as duas horas que passamos a acompanhar Walter e Kitty.

No fim, percebemos realmente que certos momentos e palavras nos tocaram, movidos por uma intensidade rara – pelo menos com esta subtileza sem pretensiosismos.

® Andreia Monteiro

1 Comments:

At 11:50 da tarde, Blogger José Varregoso said...

Apreciei bastante este filme. Apesar de ser concebido como um filme clássico, assume contornos de alguma modernidade. Tem um belo genérico. Uma fotografia cuidada. Os actores empenharam-se no seu trabalho e não desiludiram. Curiosamente vemos, no papel de Madre Superiora, Diana Rigg que foi uma Bond girl dos anos 60. E que na televisão, ficou célebre na série "Os Vingadores". (Uma Thurman viria a desempenhar o papel dela 35 anos depois.)
A Banda Sonora do Filme, que é muitíssimo boa, ganhou o Globo de Ouro. Já tentei encontrar o CD com a música do filme mas não é muito fácil encontrá-lo no mercado português.
Enfim, um bom filme. Pontualmente maçador. Mas também menosprezado. Quase ninguém reparou nele...

 

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