quarta-feira, dezembro 26, 2007

Pecados Íntimos

Título Original:
"Little Children" (2006)

Realização:
Todd Field

Argumento:
Todd Field & Tom Perrotta

Actores:
Kate Winslet - Sarah Pierce
Patrick Wilson - Brad Adamson
Jennifer Connelly - Kathy Adamson
Gregg Edelman - Richard Pierce


O dia-a-dia trivial (ou nem por isso) dos subúrbios tem servido de mote para muitos títulos do cinema independente norte-americano dos últimos anos, originando abordagens ácidas e cruéis ("Felicidade" ou "Conta-me Histórias", de Todd Solondz), desencantadas e melancólicas ("Ghost World - Mundo Fantasma"; de Terry Zwigoff ou "Os Amigos de Dean", de Arie Posin) ou irónicas e corrosivas ("Beleza Americana, de Sam Mendes; ou a série televisiva "Donas de Casa Desesperadas", de Marc Cherry).

"Pecados Íntimos" (Little Children), de Todd Field, lança mais um olhar sobre esse quotidiano onde uma aparente serenidade e um contagioso marasmo envolvem um bairro nos arredores de Boston, explorando as idiossincrasias de alguns dos seus habitantes cuja "normalidade" será mais ilusória do que palpável.

À partida, não estará aqui (e não está) nada que não tenha já sido objecto de atenção noutros (muitos) filmes, mas se Field não desbrava caminhos desconhecidos consegue, e muito bem, apresentar um retrato que escapa quase sempre ao óbvio, moldando personagens de corpo inteiro e não meras caricaturas que compilam excentricidades.

Da infidelidade à pedofilia, do desajustamento à solidão, da dissolução familiar a crises de identidade, "Pecados Íntimos" percorre algumas das zonas mais nebulosas do âmago humano mantendo quase sempre uma surpreendente consistência e maturidade, com uma perspectiva complexa sobre questões que não o são menos.

Field, que adapta o livro de Tom Perrotta, revela sensibilidade e inteligência neste envolvente retrato dos comportamentos de adultos que ainda estão a aprender a lidar com as suas responsabilidades, e não demora muito para que se perceba que "Little Children", o título original do filme, se refere a eles e não aos seus filhos.

Sarah e Brad serão o exemplo mais paradigmático, encetando uma relação adúltera que funciona como um excitante ponto de fuga à rotina letárgica dos seus casamentos, uma oportunidade de inverter o status quo e injectar alguma adrenalina ao ennui existencial que se propaga por todos.

Ela, dona de casa cansada (para não dizer desesperada) de um marido distante, cinzento e viciado em sites de pornografia; ele, daydreamer que vai adiando um exame decisivo para o início da sua vida profissional e entretanto toma conta do filho enquanto a esposa trabalha.

Longe da atmosfera crua e agonizante de um "Perto Demais", de Mike Nichols, ou de "Desencontros", de John Curran, outros títulos recentes por onde passa a infidelidade conjugal, "Pecados Íntimos" une os dois protagonistas pela capacidade de deslumbramento que ainda não perderam, a única via que encontram para escapar a dias entediantes e indiferenciados.

Ainda mais insatisfeito consigo próprio está Ronnie, regressado da prisão por prática de actos obscenos perante crianças e que apenas encontra apoio na mãe. Ao adoptar a casa desta para novo local de residência desencadeia uma onda de pânico no bairro, incitando os ímpetos alarmistas de grande parte dos moradores (com apoteose na excelente cena da piscina).

À semelhança de Michael Cuesta (em "L.I.E. - Sem Saída") ou Nicole Kassell (em "O Condenado"), também Todd Field foge aos lugares-comuns na caracterização da pedofilia, desenhando uma personagem tão ambígua como as restantes e responsável por alguns dos momentos mais inquietantes do filme (vincados por um estranho suspense, a milhas de qualquer tipo de sensacionalismo ou de choque fácil pelo recurso ao abjecto e escabroso).

Percorrendo de forma refrescante cenários já vistos e revistos, "Pecados Íntimos" alterna várias vezes de tom ao longo das suas mais de duas horas mas raramente falha na sua interligação. A narração em off, escolha algo duvidosa nos primeiros minutos, acaba por se justificar com o decorrer da narrativa, e tem mesmo um papel preponderante para que a densa carga dramática do filme seja condimentada com preciosos episódios cómicos, que emergem nos momentos mais inesperados. Field, para além de uma realização sem reparos, mostra-se atento aos comportamentos humanos, mergulhando nas suas contradições sem nunca as julgar, arriscando-se a deixar o espectador desnorteado por se rever tanto em sequências caracterizadas por um raro sentido de observação.

Se a escrita é inspirada, com diálogos vivos e credíveis, as interpretações respiram a mesma espontaneidade. Kate Winslet, justamente nomeada para o Óscar, é mais uma vez brilhante, tornando Sarah numa personagem magnética, e Patrick Wilson adiciona outro desempenho acima da média depois das boas provas dadas em "Hard Candy" ou na série "Anjos na América". Jackie Earle Haley, também nomeado pela Academia, dá a Ronnie uma intrigante ambivalência emocional que vai da fragilidade à obsessão, e Jennifer Connelly alia beleza a sobriedade no papel de mãe e esposa dedicada, mesmo quando traída.

O primeiro grande filme a estrear em 2007, só muito dificilmente "Pecados Íntimos" não será recordado no final do ano como um dos melhores. Drama adulto, sério sem ser sisudo, ousado mas dispensando excessos de irreverência, aperfeiçoa as capacidades que Todd Field evidenciava ocasionalmente no anterior "Vidas Privadas" e que, agora sim, se torna num cineasta a não perder de vista.

® Gonçalo Sá

3 Comments:

At 1:21 da manhã, Blogger wasted blues said...

Gosto muito deste filme. No início do ano, senti logo que ia ser um dos melhores do ano e não me enganei.

 
At 3:14 da tarde, Blogger Cataclismo Cerebral said...

O melhor filme do ano, para mim... Bela crítica!

Abraço

 
At 8:50 da tarde, Anonymous gonn1000 said...

Wasted Blues: Também achei logo isso, e foi mesmo o meu preferido.

Cataclismo Cerebral: E para mim também :)
Obrigado.

 

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