sábado, dezembro 24, 2005

Feliz Natal, Mr. Lawrence

Título Original:
“Merry Christmas Mr. Lawrence” (1983)

Realização:
Nagisa Oshima

Argumento:
Paul Mayersberg & Nagisa Oshima, baseado na obra “The Seed and the Sower” de Laurens Van der Post

Actores:
David Bowie – Major Jack Celliers
Tom Conti – Coronel John Lawrence
Ryuichi Sakamoto – Capitão Yonoi
Takeshi Kitano – Sargento Hara


Antes de mais, há que revelar, em forma de lamento, que custa bastante e indigna imenso ver um filme sério e de natureza complexa num Centro de Artes com a infeliz “companhia” de uma muito numerosa família venezuelana – onde nem faltavam os irritantes garotos – que parecia ter como missão do dia “estragar” o filme a quem pusesse os pés no auditório da referida instituição com o propósito de assistir a uma agradável e calma sessão de cinema após o jantar. O barulho no visionamento de um filme é sempre demasiado, por mais diminuto que seja, mas quando se apresenta constante e com um dinamismo incrivelmente notório e até de cariz provocativo (foram imensos os sons obscenos feitos com as mãos que são normalmente praticados com outras partes do corpo!!!) a situação torna-se… revoltante. Daí que, para atingir a estimulação plena provocada pela visualização de uma obra cinematográfica, o tiro sai pela culatra. Mesmo assim, lá consegui absorver algumas virtudes do filme, o suficiente para considerá-lo bom- se algum dia o acharei mais meritório é bem possível, desde que o veja como merece ser visto. Pondo de lado as tristes situações que se passam nos nossos cinemas (ou Centros de Artes) e que tanto atormentam quem realmente gosta de cinema, vamos lá ver o que aproveitei de Feliz Natal, Mr. Lawrence.

Estamos em 1942, Java, no Japão. A acção decorre num campo de prisioneiros comandado pelo Capitão Yonoi (Ryuichi Sakamoto), que aposta fortemente as suas convicções na honra e na disciplina. No dito campo, onde os prisioneiros são ingleses, destes destacam-se o intrépido Major Jack Celliers (David Bowie) e o sensato(?) Coronel John Lawrence (Tom Conti). A relação entre militares ingleses e japoneses não é recomendável e certos acontecimentos no campo que envolvem homossexualidade, segredos militares e sentido de honra militar entre antagonistas vão despoletar um ambiente cada vez mais tenso, onde irão imperar os tormentos resultantes de um dilacerante e furioso choque de culturas. Directa ou indirectamente, Celliers e Lawrence apresentam-se como figuras de proa desta realidade desconcertante, sendo os mesmos os responsáveis pelos desígnios que irá tomar esta espiral descendente. A enfatizar o efervescente choque de culturas está Takeshi Kitano, na pele do personagem Sargento Hara. Um violento e tempestuoso Kitano, características dominantes e inconfundíveis do seu cinema enquanto realizador, visto ferver em pouca água na relação com os soldados de terras de Sua Majestade.

Nomeado à Palma de Ouro de Cannes, festival que muito bem tem tratado Nagisa Oshima, destacando a vitória na realização por O Império da Paixão, entre as nomeações ao prémio principal de outros seus filmes, Feliz Natal, Mr. Lawrence apresenta um teste ao espírito humano e à capacidade deste lidar com adversidades que teimamos, rejeitamos ou simplesmente não conseguimos perceber. Num filme que estabelece certos paralelos com o clássico A Ponte do Rio Kwai, onde a relação entre prisioneiros e dominadores da situação também era complexamente tremida, o realizador do emblemático e ainda mais controverso O Império dos Sentidos aposta num tom algo ambíguo onde um sentido lirismo consegue encontrar algum espaço numa narrativa que não poucas vezes expõe atmosferas de resolução que não chamam muito à contemplação. A provar isso, encontramos uma boa carga de diálogos desafiadores, que vão pautando a turbulência interior que teima em apegar-se com unhas e dentes aos intérpretes e propiciando uma consequente combustão que vigora incansavelmente. Nagisa Oshima, para potenciar ainda mais os reflexos que advêm dessa turbulência interior, recorre consideravelmente ao close-up, aposta ganha e reveladora da capacidade do desencantado poder facial dos actores. Actores esses que emanam notória competência, sem se tornarem soberbos, embora Bill Conti, com uma carreira subaproveitada, revele uma sobriedade digna de realce. Quanto a Bowie e Sakamoto, os restantes integrantes do triângulo interpretativo que se destaca, embora seja a Música o seu habitat mais que natural e onde dão as suas melhores cartas, há que apreciar a sensível altivez que percorre o primeiro. Quanto a Sakamoto, sem rasgos de génio mas bem mais longe do falhanço, passa naturalmente por alguém que interpreta há já bem mais tempo, tendo sido esta a sua estreia à frente das câmaras. A banda sonora, a seu cargo, é que o coloca exemplarmente no lugar onde melhor pertence, possuidora de uma belíssima aura encantatória que vai esbarrando de vez em quando com momentos mais crus e de natureza de alguma aflição. Os clímaxes de Feliz Natal, Mr. Lawrence apresentam-se de tonalidade variada, ora no desencantado e compassivo momento onde Conti e Bowie revisitam memórias suas, ora em momentos de uma energia visual e emocional intrinsecamente cinética. Mas o filme todo não consegue ser percorrido por esta sobriedade emocionalmente madura, havendo momentos onde pauta um mediano tratamento narrativo, sendo-lhes conferido uma aparência de apelabilidade um tanto infectada, mas sem se tornarem em desprezível “palha”, também pela sua importância narrativa, dado que há a ideia que aqui não há situações que demonstrem uma existência inconsequente.

Contudo, Feliz Natal, Mr. Lawrence consegue afirmar-se como uma boa proposta para quem não se importar de ver um filme militarizado anti-belicista, um filme de uma maturidade que renega convencionalismos, um filme que, quem sabe, podia levar mais umas estrelinhas se umas certas pessoas não estivessem no lugar errado à hora errada.

® Artur Almeida

2 Comments:

At 2:45 da manhã, Blogger gonn1000 said...

Deste realizador só vi "Tabu", que também proporciona um olhar pouco habitual sobre as relações entre guerreiros, mas não gostei. Mesmo assim, fiquei curioso quanto a “Merry Christmas Mr. Lawrence”, quando puder vejo-o, desde que sem venezuelanos :P

 
At 5:11 da manhã, Anonymous Anónimo said...

amigo, Java nao fica no japao!!!!

 

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