quarta-feira, maio 11, 2005

5x2

Título Original:
"5x2 (Cinq fois Deux)" (2004)

Realização:
François Ozon

Argumento:
Emmanuele Bernheim

Actores:
Valeria Bruni-Tedeschi – Marion
Stéphane Freiss– Gilles
Françoise Fabian – Monique
Géraldine Pailhas - Valerie


Um dos nomes do recente cinema francês a ter em conta, François Ozon possui já uma interessante filmografia onde constam títulos de reconhecido mérito como 8 Mulheres ("8 Femmes") ou Swimming Pool, provas da eficácia e versatilidade do cineasta.

5x2, a nova obra do realizador, constituiu uma das boas surpresas da 5ª Festa do Cinema Francês, decorrida no Cinema S. Jorge em Outubro de 2004, e destaca-se como mais uma valorosa película a acrescentar ao percurso de Ozon.

Esta abordagem às tensões de uma experiência conjugal distingue-se, desde logo, pela sua estrutura narrativa, que consiste na sucessão de cinco episódios marcantes da vida de um casal, apresentados do fim para o início.
Assim, as peripécias são exibidas num "flashback" constante, uma vez que os primeiros momentos do filme se centram no divórcio e as cenas seguintes focam um atormentado jantar em família, o nascimento do filho, o casamento e, por fim, a ocasião em que a dupla efectuou os contactos iniciais.

Embora a estrutura narrativa de 5x2 fuja ao convencional, não é propriamente inédita, pois fórmulas semelhantes foram utilizadas no polémico Irreversível ("Irreversible"), de Gaspar Noé, ou no thriller de culto Memento, de Christopher Nolan.
O que acaba por sobressair no filme é a perspicácia de Ozon para retratar a complexidade e a ambivalência das relações humanas através de personagens bem construídas, ainda que nem sempre consigam gerar empatia.
Grande parte da solidez de 5x2 deve-se ao óptimo trabalho de actores, com destaque evidente para a dupla protagonista constituída por Valeria Bruni Tedeschi e Stéphane Freiss.

Um drama sóbrio, seco e realista, o mais recente filme de Ozon revela a importância dos "pequenos" detalhes de uma relação a dois e das atmosferas de discreto antagonismo que vão fomentando uma aura de claustrofobia e amargura crescentes.

Através de subtis olhares sobre a intimidade do duo regista-se uma implosão emocional inevitável e reequaciona-se a possibilidade do amor e dos laços de confiança.
A perspectiva do cineasta acentua, assim, a melancolia e o desespero, factor que envolve o filme num ambiente lacónico e pouco optimista.
Essa carga considerável de solidão e negrume torna 5x2 numa obra demasiado gélida e distante a espaços, antecipando um futuro - e passado - pouco auspicioso para as suas personagens (mesmo o último episódio, sobre as férias de Verão, contém já as bases da espiral descendente).

Devido à sua natureza, o filme desperta reacções ambíguas, ora seduzindo pela verosimilhança e rigor de algumas situações (e pelas envolventes interpretações do elenco), ora gerando estranheza pelo pessimismo - ou mesmo niilismo - que insiste em dominar o rumo dos acontecimentos.
Embora este carácter dúbio torne 5x2 num projecto irregular, não impede que esta seja uma boa escolha para quem procura um drama adulto e inteligente.

® Gonçalo Sá

2 Comments:

At 3:37 da tarde, Anonymous Luís Mendonça said...

sublinhe-se a música de Paolo Conte, "Sparring Partner", incluida, quanto a mim, na melhor cena do filme. O filme, na globalidade, pareceu-me mais uma obra competente de Françoiz Ozon, dos realizadores mais competentes do cinema europeu recente. No entanto, ainda estamos à espera do grande filme de Ozon.

cumprimentos

Luís M.

 
At 10:06 da tarde, Blogger gonn1000 said...

Sim, também acho que Ozon ainda não fez nenhum grande filme, mas penso que este é um dos mais interessantes da sua filmografia.

Cumprimentos

 

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