quarta-feira, agosto 31, 2005

Má Educação

Título Original:
"La Mala Educación" (2004)

Realização:
Pedro Almodóvar

Argumento:
Pedro Almodóvar

Actores:
Gael García Bernal - Ángel/Juan/Zahara
Fele Martínez - Enrique Goded
Daniel Giménez Cacho - Padre Manolo


Depois da intensidade de Tudo Sobre a Minha Mãe e Fala com Ela, Pedro Almodóvar aumenta as doses de negrume e obscuridade em Má Educação, distanciando-se da vertente calorosa e emotiva dessas elogiadas obras antecessoras.
Apostando em tons mais sinistros, o mais recente filme debruça-se sobre temas polémicos como a pedofilia, a prostituição ou a homossexualidade. É certo estas temáticas não são inéditas na obra do cineasta, mas raramente foram abordadas de forma tão soturna e arrepiante como em Má Educação.

Herdando referências do film noir, do policial ou do melodrama, a película centra-se na relação de dois amigos de infância, colegas de um colégio interno católico, que se reencontram mais tarde, na idade adulta, no início dos anos 80. Enrique é agora realizador de cinema e Ignacio um actor principiante à procura de uma oportunidade para brilhar. Quando os dois jovens se reencontram, estão lançadas as pistas para uma intrincada história marcada pela mentira, traição, morte, amor e vingança, onde o presente e o passado mantêm uma interligação incontornável.

Almodóvar proporciona um denso olhar sobre os podres da Igreja Católica, nomeadamente sobre as assombrosas atmosferas dos colégios internos e das ambivalentes relações entre os padres e as crianças. É sabido que o cineasta passou a infância nestas instituições, mas desconhece-se até que ponto o argumento de Má Educação é auto-biográfico.
Através de flashbacks, o filme apresenta uma perspectiva sobre os laços de confiança dos dois amigos na infância, expondo também a descoberta da paixão de ambos pelo cinema e os primeiros contactos com o despertar da sexualidade.
Com uma estrutura narrativa complexa e criativa, Má Educação funde as esferas da realidade e da ficção, tornando-se num desafio constante para o espectador e obrigando-o a reavaliar e questionar os acontecimentos decorridos.
Ao contrário de grande parte dos filmes de Almodóvar, aqui não se efectua um mergulho no universo feminino, antes se expõem as tensões e antagonismos de um conjunto de personagens masculinas. O carácter trágico e a densidade dramática, no entanto, mantêm-se, através de uma teia de intrigas vincada pelo desejo, ambição, pecado e obsessão. As atmosferas são, por isso, carregadas de negrume, e raramente há espaço para o despontar do amor num filme que aborda a perversidade humana. A espaços, verificam-se alguns momentos de humor, mas Má Educação privilegia a melancolia e o desencanto.

Para além da espessura dramática, a película impressiona também pelo rigor técnico e formal, onde a realização e banda-sonora voltam a marcar pontos e a reconstituição de Madrid dos anos 80 exibe competência. A direcção de actores é igualmente profícua, da qual se destaca a credibilidade do duo protagonista constituído por Fele Martínez (Enrique) e, sobretudo, Gael Garcia Bernal (Ignacio). Bernal, um dos mais promissores actores latinos de hoje - como Amor Cão, E a Tua Mãe Também ou Diários de Che Guevara podem atestar - , oferece aqui os seus melhores desempenhos e confirma a sua versatilidade (a femme - ou homme? - fatale que compõe é uma das mais impressionantes interpretações do ano).

Talvez menos acessível e imediata do que algumas das suas obras anteriores, Má Educação é uma experiência cinematográfica que volta a demonstrar a vitalidade criativa de Almodóvar e um estilo que - goste-se ou não - é singular, característico e pessoal.

® Gonçalo Sá

7 Comments:

At 12:51 da tarde, Anonymous S0LO said...

Ando há que tempos para ver este :(!

Cumps. cinéfilos

 
At 2:09 da tarde, Blogger gonn1000 said...

E estás à espera de quê??? :P

 
At 9:06 da tarde, Blogger Daniel Pereira said...

É um grande filme, sim senhor. Mas tenho medo que o senhor se esgote, não sei porquÊ. Esperemos que não.

 
At 1:35 da tarde, Blogger gonn1000 said...

Até agora tem sabido renovar-se, veremos como será no futuro. Esperemos que continue assim...

 
At 6:11 da tarde, Blogger Daniel Pereira said...

Lá está, não acho que ele se tenha renovado assim tanto. Tem é feito muito bem o que sabe. Vamos ver.

 
At 7:50 da tarde, Blogger Paulo said...

Não estando ao nível dos 3 filmes anteriores do realizador, é ainda assim muito bom, e merecedor de aplausos. Além de que Almodóvar cada vez parece filmar melhor, e Gael García Bernal leva tudo à frente, seja qual for o filme onde participe.

 
At 3:32 da tarde, Blogger gonn1000 said...

Daniel: Nah, a obra dele é ecléctica, e os dois últimos filmes, por exemplo, não podiam ser mais diferentes...

Paulo: Por acaso acho que este é melhor do que qualquer dos 3 anteriores, mas sei que esta opinião é longe de consensual. E o Gael é realmente decisivo neste filme...

 

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