domingo, março 11, 2007

Charles Chaplin: O Adorável Vagabundo II

Em 1919, associando-se com os outros pesos pesados da época, o actor Douglas Fairbanks, a actriz Mary Pickford, e o realizador D. W. Griffith, fundou a produtora United Artists. A partir daí passou a uma fase de ainda maior reconhecimento, mas sempre com uma visão acutilante e corajosa sobre a actualidade e a condição humana, onde a comédia era inseparável da dimensão trágica da vida. Dando asas a toda a sua imaginação e talento, e aproveitando a maior proliferação de longas-metragens, categoria cinematográfica à qual aderiu com grande regularidade e sucesso a partir daí, somou grandes êxitos em cadeia, com destaque para O Garoto de Charlot, de 1921, filme que não tinha sido feito para a sua produtora. O primeiro a sê-lo foi curiosamente o drama Opinião Pública, de 1923. Passaram dois anos e chegou o clássico A Quimera do Ouro, onde o pequeno vagabundo imortalizou cenas clássicas como a de comer os atacadores de sapatos cozidos. De realçar que foi deste ano o filme que Chaplin elegeu como o seu preferido de todos os tempos: O Couraçado Potemkin, película russa de Sergei Eisenstein.

Em 1928, ainda a Academia dava os seus primeiros passos, e ele já recebia nomeações para dois Óscares como Actor e Realizador em O Circo, tendo amealhado um Óscar especial pela genialidade do filme, sendo que é digno de nota referir que este é tido em conta pelo grande mestre sueco Ingmar Bergman como um dos seus preferidos de sempre. Três anos volvidos e foi a vez de Luzes da Cidade, obra à qual Chaplin assistiu nos cinemas ao lado de Albert Einstein, e depois, de George Bernard Shaw. Obra essa também proclamada pelo génio Orson Welles como a sua favorita de todos os tempos.

Depois de uma pausa de cinco anos, na qual passou algum tempo na sua Londres natal, voltou à carga com Tempos Modernos, seu último filme essencialmente mudo onde caricaturizou o sistema industrial com enorme sucesso. Importa referir que Chaplin conseguiu resistir consideravelmente ao cinema sonoro, tendo sido o único cineasta a obter extraordinário êxito de público com filmes mudos numa época onde as películas faladas já estavam totalmente implantadas. A sua transição para este tipo de cinema deu-se em 1940 com O Grande Ditador, célebre sátira a Adolf Hitler e ao regime nazi nomeada para cinco Óscares, incluindo o de melhor actor e o de melhor filme. Ao que consta, o ditador austríaco, adepto de cinema, viu a obra por duas vezes, curiosamente através de uma cópia vinda de Portugal, visto ter banido o filme da Alemanha e dos outros países ocupados por esta. A partir daí, a carreira de Chaplin começou a ressentir-se duma constante publicidade negativa, devido a divórcios litigiosos, acusações de adultério e vários processos de paternidade.

Para agravar a situação, O Barba Azul, seu filme seguinte e único em cinco anos, foi um falhanço comercial. Obra demasiado avançada para a época, tinha sido baseada numa ideia original de Orson Welles. Em 1952, em viagem na Inglaterra, o senador McCarthy acusou-o de simpatias comunistas e recusou-lhe o visto de entrada nos Estados Unidos, obrigando-o a refugiar-se na Europa, tendo recaído a escolha na Suíça. Foi no velho continente que promoveu o seu filme produzido nesse ano, Luzes da Ribalta, o seu expoente máximo do período sonoro pelo qual recebeu um Óscar de melhor banda sonora e no qual Buster Keaton teve uma participação especial. Keaton, amigo de longa data de Chaplin, declarou-o na sua autobiografia como “o maior comediante mudo de todos os tempos”. Não esquecer que, no período mudo do cinema, os grandes reis da comédia eram três: além do nosso herói, contavam-se o já referido Buster Keaton e Harold Lloyd. Chaplin gozou de um destaque ímpar em relação a todos os outros, daí ser perfeitamente compreensível a afirmação elogiosa de Keaton.

Continuando, Chaplin ainda realizou mais dois filmes. O primeiro, Um Rei em Nova Iorque, foi uma aguçada sátira ao mundo da realeza que passou algo despercebida e assinalou o seu último papel protagonista. A finalizar, A Condessa de Hong-Kong apresentou-se como uma comédia romântica protagonizada pela dupla maravilha Marlon Brando e Sophia Loren, situação privilegiada que não encontrou sucesso no público. Contudo, este seu último fôlego menos conseguido não faz esmorecer nenhum do respeito que o senhor nos merece.

Era dia de Natal quando, na Suíça em 1977, a morte lhe bateu à porta durante o sono. O pequeno vagabundo perecia de causas naturais. O seu cadáver chegou a ser saqueado para fins de chantagem para com a sua família, tendo ficado desaparecido durante três meses até ter sido recuperado. A isto chama-se profanar o sagrado.

Chaplin, o enorme génio que foi, durante a cerimónia dos Óscares de 1972, e já com permissão para estar nos Estados Unidos, foi galardoado com um Óscar honorário ao som de uma plateia em êxtase que o aplaudiu entusiasticamente de pé durante dez minutos. No momento, Chaplin confessou ter entrado no cinema por dinheiro, a “coisa” da Arte só tinha vindo depois. “Havendo eu sido cego, agora vejo”. E como ele viu!!!...

® Artur Almeida

2 Comments:

At 4:09 da manhã, Blogger wasted blues said...

Grande Chaplin! Gosto muito de vários filmes, mas o 'City Lights' é especial :)

 
At 5:40 da tarde, Anonymous rui said...

faria hoje anos.

 

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